Início Cultura Será que Elaine pode finalmente estar recebendo o que lhe é devido?

Será que Elaine pode finalmente estar recebendo o que lhe é devido?

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Elaine Might tornou-se famosa aos vinte e cinco anos e rica pouco depois, mas demorou mais uma década para descobrir o que fazer da sua vida, altura em que já estava demasiado à frente do seu tempo para se adaptar a ele. Em meados da década de 1950, Might formou uma dupla com Mike Nichols que trouxe a comédia improvisada das casas noturnas para a vanguarda da cultura pop, ajudando a codificar a forma de arte e a estabelecê-la como a instituição que é hoje. Mas, por mais significativo e encantador que seja esse trabalho, Might permaneceu nele apenas por um breve período – apenas meia década. Profissionalmente, ela esteve perdida durante a maior parte da década de 1960 e corria o risco de ser lembrada com tanto carinho e obscuridade quanto a maioria dos humoristas atuais de épocas passadas. Depois, em 1969, tornou-se diretora de cinema e provou, já em seu primeiro longa, ser uma das cineastas mais originais surgidas na chamada Nova Hollywood. No entanto, o seu legado cinematográfico foi cruelmente definido para o público em geral, não pela grandeza dos seus filmes, mas pela ignomínia imerecida do quarto e mais recente deles: “Ishtar”, de 1987, que foi um fracasso de bilheteira e foi obtusamente considerado por muitos críticos como um desastre artístico e uma loucura histórica, matando assim sua carreira como diretora.

A vida de Might teve dois atos e meio – comédia, direção e tudo mais desde então – e pode ser difícil descobrir o que eles têm a ver um com o outro ou o que fazer durante os longos intervalos. Entre os muitos méritos de “Senhorita Might não existe”, uma nova biografia de Might, profundamente pesquisada e psicologicamente astuta, escrita por Carrie Courogen, é que a autora vê continuidades e padrões em uma carreira que é unificada, acima de tudo, pela força do caráter de Might. Courogen também avalia a sorte de Might à luz da história social, dando um relato detalhado dos muitos obstáculos que Might, como mulher, enfrentou na indústria do entretenimento americana no last dos anos 1950 e início dos anos 1960 – uma época em que havia poucas comediantes ou dramaturgas de stand-up. e nenhuma diretora de cinema trabalhando em Hollywood. O livro foi escrito com uma energia literária ousada que parece autêntica ao seu tema, e faz justiça tanto ao poderoso talento artístico de Might quanto à complexa estrutura de sua vida, ligando-os de forma persuasiva, ao mesmo tempo que resiste às correlações fáceis entre suas preocupações pessoais e suas inspirações ardentes.

A acuidade psicológica da biografia é ainda mais notável dada a relutância de longa information de Might em falar sobre sua vida, ou mesmo em falar com a imprensa. Courogen desenvolve uma visão refinada e comovente de uma artista que passou sua vida adulta fugindo de sua origem com o desespero de um refugiado, ao mesmo tempo que encobre seus rastros para manter seus traumas longe do olhar lascivo e hipercrítico da mídia e do público. . Courogen, que quase teve sucesso em seu esforço para entrevistar Might, a chama de Elaine o tempo todo, e ela tem o direito de ser pelo primeiro nome, por mais indireta que seja sua familiaridade. A julgar pelas notas finais, ela tem sido diligente, até mesmo fanática, na sua investigação, e suspeito que não ter acesso a Maio poderia, em última análise, ter sido uma vantagem. Descobrir Might por meio de fontes publicadas, documentos de arquivo e entrevistas com seus amigos e associados obrigou Courogen a construí-la, e o retrato resultante tem o discernimento intenso, porém livre, de um romance.

Might raramente fala sobre sua infância, e Courogen faz um extraordinário trabalho de detetive para reunir as peças dos problemas e terrores que Might evitou discutir. Might nasceu em 21 de abril de 1932, como Elaine Berlin. Seu pai, Jack, period um ator esforçado no teatro iídiche e produtor e diretor de seus próprios exhibits; sua mãe, Ida, administrava os negócios do marido, embora muitas vezes houvesse poucos negócios para ela administrar. A família period pobre; Jack perambulava de cidade em cidade, tentando atrair público, e sua mãe dominadora, que inexplicavelmente odiava Ida, embolsava seus ganhos e os devolvia às colheradas. Might, no entanto, desempenhou alegremente pequenos papéis com ele no palco. Quando ele obteve algum sucesso em um programa de rádio de Chicago, no início dos anos 40, ela às vezes se apresentava com ele no ar, mas o dinheiro demorava a chegar. Em março de 1942, Jack morreu de ataque cardíaco em uma drogaria.

Ida, com a filha a tiracolo, foi morar com o irmão, que estava envolvido com gangsters; ele então se mudou com a família para Los Angeles. Ida period fria e dura; Might period teimosa e entediada, abandonando a escola aos quatorze anos e seguindo seu próprio curso intensivo de leitura. Depois veio a fuga – e a fuga novamente – em termos que Might manteve em grande parte para si. Aos dezesseis anos, ela se casou com um ex-colega de escola, Marvin Might, de dezenove; aos dezessete anos, ela teve uma filha, Jeannie, e, seis meses depois, separou-se de Marvin. Ela teve empregos ocasionais e se interessou por teatro; então, em 1952, depois de deixar Jeannie com Ida, ela pegou carona até a Universidade de Chicago, onde não period necessário diploma de ensino médio para cursar. Ela não se matriculou, mas impressionou seus colegas com seu brilho audacioso e franco.

Might se envolveu com uma companhia de teatro e trabalhou com um recém-formado chamado Paul Sills, que submeteu seus atores a um treinamento de improvisação. Ele a apresentou a outro ator, que ele chamou de “a única pessoa no campus que é tão hostil” quanto Might. Seu nome period Mike Nichols. Quando eles se encontraram novamente, ele se reapresentou a ela com um floreio dramático que ela retribuiu com um talento correspondente; sua improvisação espontânea levou a uma amizade instantânea, a uma aventura sexual e a um vínculo pessoal e artístico duradouro. (Nichols disse a John Lahr, em um perfil publicado nesta revista: “Elaine e eu somos, de uma forma estranha, inconscientes um do outro.”) Sua improvisação cômica se tornou uma sensação, mesmo que Might atribua seu sucesso a um acidente: “Nós começamos, nós dois, como atores do Método, e acabamos sendo engraçados.”

No verão de 1957, Might e Nichols fizeram parte de uma trupe de improvisação residente em St. Nichols foi para Nova York e mandou chamar Might, sugerindo que trabalhassem juntos. (Curogen analisa as muitas versões conflitantes desta história, que revelam diferentes elementos dos ciúmes destruidores da trupe.) Em Chicago, enfatiza Courogen, a dupla Might e Nichols period apenas fashionable localmente; em Nova York, eles saltaram, em três meses, de um present no Village Vanguard para televisão no horário nobre e celebridade nacional. Então as ofertas e o dinheiro chegaram (e Might trouxe Jeannie e Ida para morar com ela). Nichols e Might – assim foram anunciados – tornaram-se onipresentes na televisão, nos clubes e nos discos. Mas com a fama veio a necessidade de gerir a sua imagem pública. Might odiava dar entrevistas e resistia a falar sobre si mesma, muitas vezes lançando absurdos manifestamente absurdos ou mentiras persuasivas. (O título do livro de Courogen é a totalidade da concisa biografia escrita por Might na capa de um dos álbuns da dupla.) Pior, com aclamação vieram os negócios: o que fez de Nichols e Might um sucesso foi o risco, mas manter esse sucesso emblem implicava evitar riscos. Em outubro de 1960, eles foram para a Broadway, fazendo mais ou menos o mesmo present oito vezes por semana. Eles foram um sucesso, lotando rotineiramente a casa, mas isso funcionou. Might odiou a repetição e, em 1º de junho de 1961, ela avisou com quatro semanas de antecedência. Ela não tinha mais nada planejado.

Em pouco tempo, Nichols conseguiu um emprego como diretor de “Barefoot within the Park”, de Neil Simon, na Broadway, pelo qual ganhou um Tony. Mas Might não estava indo a lugar nenhum. Ela escreveu peças malsucedidas, trabalhou em outro programa de improvisação e escreveu para a TV. Em 1968, ela seguiu Nichols na direção, e esse movimento explorou sua natureza artística mais profunda. Courogen destaca a unidade interna do conjunto de ideias e métodos de Might, tanto nas histórias que conta quanto na linguagem que usa. Ao ler “Miss Might Does Not Exist”, fiquei impressionado com a recorrência de diversas palavras que são como estrelas-guia na obra de Might e que, juntas, formam uma constelação que expressa sua visão abrangente: “processo” e “controle”, junto com “verdade”, “realidade” e várias formas disso. (Este conjunto de conceitos e ideais também ajuda a explicar a aversão desesperada de Might às entrevistas, que lhe impôs a contradição insustentável de oferecer a verdade sem controlo.)

Might havia feito uma direção primordial em Chicago e, desde o início, sua abordagem para encenar peças foi distinta. “Os detalhes eram o que diziam a verdade”, escreve Courogen, sobre a produção de Might de 1954 de “Miss Julie”, de August Strindberg. “Os detalhes nunca mentiram, nunca revelaram; mesmo o menor deles tinha que ser atendido com muito cuidado. Uma hora de ensaio seria gasta aperfeiçoando a remoção de um copo de uma bandeja; a gravação da faixa de apoio ambiente do present durou a noite toda.” Ela também observa que “embora Elaine tenha se mantido fiel ao roteiro de Strindberg, ela insistiu que a verdade de cada momento fosse encontrada organicamente, por meio da improvisação, e então refinada a partir daí”.

Foi um feliz acidente, porém, que transformou Might em diretora de cinema. Ela apareceu em dois filmes esquecíveis de Hollywood (ambos lançados em 1967) e percebeu que poderia ganhar dinheiro como roteirista. Em 1968, a Paramount comprou sua adaptação de um conto comedicamente macabro e também a recrutou para co-estrelar e dirigir o filme. Hollywood, escreve Courogen, tentava ansiosamente acompanhar a mudança dos tempos; contratar uma diretora jovem e mulher, mas ainda assim uma veterana do showbiz, parecia uma versão segura de uma jogada ousada. Esta foi uma rara ocasião em que a política sexual funcionou a favor de Might, embora, previsivelmente, ela fosse extremamente mal paga.

O filme “A New Leaf” revela uma nova dimensão cinematográfica que é inteiramente própria de Might – uma dimensão que depende e reflete seus métodos singulares e exemplifica sua visão de mundo endurecida. O filme é uma comédia e um romance, mas um romance de um tipo explicit – uma história de amor à la “Barba Azul”. Walter Matthau interpreta Henry Graham, um idoso financiador que desperdiçou sua riqueza em luxos absurdos e, à beira da ruína, é aconselhado por seu criado (George Rose) a se casar com um homem rico e rapidamente. Prevendo com alarme a necessidade de partilhar o seu lazer hermeticamente perfeito, Henry resolve casar-se (e assassinar) às pressas – e procura o companheiro splendid para acabar com ele. Ele a encontra: Henrietta Lowell (interpretada por Might), rica, solteira, desesperadamente ingênua, ridiculamente sem graça tanto social quanto fisicamente, sem interesses ou conexões fora de seu estudo de botânica e sem parentes que possam perguntar sobre seu destino trágico iminente.

O princípio subjacente à trama é sarcástico. Em seu rápido namoro com a solitária, mas de coração aberto, Henrietta, Henry oferece uma personificação de ardor romântico digna de um Oscar, e Might se delicia com o abraço desinibido de Henrietta em seu implacável pretendente. Além disso, o plano covarde de Henrique envolve trabalhos imprevistos que se revelam inesperadamente cavalheirescos e benevolentes, e Henriqueta floresce, por mais breve que seja, ao seu lado. Apesar de toda a ameaça iminente, “A New Leaf”, embora seja uma comédia romântica, é uma reviravolta intensa e amargamente irônica no gênero em que Henrietta está apaixonada por um homem que planeja matá-la; o homem que planeja matá-la também se apaixona por ela; e Henrietta, tomando consciência de seus desígnios, o ama independentemente e o aceita precisamente porque ele sabe que ela sabe.

Com a sua cautela em relação à auto-revelação, Might encontrou-se, como realizadora, numa posição conflituosa. Como uma artista exploradora com uma paixão pela verdade e pela realidade – e como uma modernista cujo processo, enraizado no Método, tornou o seu trabalho intrinsecamente pessoal – ela foi levada a colocar-se nos seus filmes, infundindo a sua personalidade na fibra da acção enquanto ainda evitando os detalhes de sua vida. No entanto, as máscaras são, em alguns lugares, transparentes. Ao retratar a vulnerabilidade de Henrietta – primeiro, em sua confiança cega e depois em seu conhecimento doloroso – Might dota a personagem com algumas de suas próprias características, como, por exemplo, uma estranheza inconsciente. Veja como Courogen descreve Might nas fotos publicadas: “Migalhas ou manchas na frente da blusa; uma bolsa velha e esfarrapada, com uma bagunça de papéis jorrando da parte superior, apertada com força contra o peito; batom que ultrapassa os limites da boca e óculos de farmácia com as etiquetas de preço ainda colocadas. A hábil comédia física dos modos retrógrados e da distração desajeitada de Henrietta são, sugere o filme, combinadas com sua devoção obstinada ao seu campo de atividade intelectual – e essa obsessão é o que a salva. Tal é o autorretrato exagerado e autodepreciativo de Might.

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