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Review – Esquadrão Suicida

Uma colcha de retalhos do pior que o cinema tem a oferecer

Ruim

Desde o começo Esquadrão Suicida me surpreendeu. Infelizmente, não de um jeito positivo. E olha que minhas expectativas para ele eram as mais baixas possíveis.

Confesso que nunca me interessei pela ideia do filme desde o princípio. Quer dizer, não pela ideia em si – afinal, o objetivo de fazer um filme sobre vilões que salvam o mundo é sempre algo bem interessante – mas sim pelo tipo de produto vendido pela Warner desde o começo. Simplesmente não consegui entrar no hype enorme que o estúdio se esforçava a todo momento para gerar. Então, eu realmente me surpreendi quando o filme superou todas minhas expectativas. Eu esperava que fosse ruim, mas não tanto. E com tantos problemas em todos os quesitos.

“O Coringa ficou parecendo um adolescente de 15 anos que se acha muito rebelde porque fez uma tatuagem (de henna) de caveira no braço e contou pra vó que é ateu.”

Primeiro, o filme em si é muito mal montado. E já desde o começo, já que a primeira cena te deixa com uma sensação de que você possa ter perdido algo, como se fosse pensado pra fazer todo mundo ficar com o mesmo sentimento de quando você passa muito tempo na fila pra comprar pipoca e acaba perdendo os primeiros cinco minutos, pegando o filme já com o bonde andando. E então vem o problema do “pensar” a história. Como sabemos, a Warner se intrometeu pra caramba durante as gravações, obrigando que cenas e trechos inteiros do filme fossem regravados depois da reação da crítica à Batman vs Superman. Mas o problema é que todas essas mudanças ficaram muito, mas muito nítidas; tão nítidas a ponto de parecer que temos dois filmes distintos: na primeira metade, nós temos um bando de mercenários maus, mas maus mesmo, que não tem alma, que não tem piedade, que não tem nenhuma fagulha de algo que possa fazer com que eles sejam considerado humanos. Mas, depois de uma hora e meia de filme, esses mesmos personagens viram pessoas incompreendidas, que no fundo são bons e que na verdade são assim porque a sociedade não os aceita do jeito que são. E qual é a transição que temos entre um momento e outro? NENHUMA. E é literalmente nenhuma mesmo. Eles entram numa rua como loucos desalmados e saem dela como rejeitados da sociedade mas com um bom coração. Assim, sem mais nem menos.

Suicide-Squad

O próprio ritmo do filme sofre desses momentos distintos. A primeira metade parece um enorme trailer (ou clipe musical), com vários cortes rápidos e cenas frenéticas que parecem se esforçar para deixar o espectador zonzo. E, de repente, tudo muda: a música, as cenas, os diálogos, tudo fica nitidamente mais parado, chegando ao cúmulo de mesmo as cenas de ação que até então eram frenéticas de repente se tornarem cheias de slow motions. É como se estivéssemos num carro a 180km/h e de repente somos obrigados a frear bruscamente e ficar atrás de um caminhão com quase o dobro da carga que ele aguenta carregar, na subida. E a trilha sonora também marca bem esses momento tão distintos do filme: durante metade dele é uma trilha cheio de clássicos do rock/pop dos anos 80/90, mas que ao invés de ajudar a tornar o filme único (como aconteceu em Guardiões da Galáxia e até mesmo em Coração de Cavaleiro) só serviu para aumentar a sensação de estarmos assistindo a um grande videoclipe. As músicas seguiam uma atrás da outra, sem intervalos, que depois de uma três eu já estava esperando ouvir uma voz feminina dizendo “Assine Spotify Premium por apenas R$1,99…” E então, de repente, a jukebox é trocada por uma orquestra, com música instrumental ambiente, numa mudança tão sutil quanto um Scania buzinando no seu ouvido.

“A Arlequina de Margot Robbie é bastante promissora, e só não rouba mais a cena por conta das muitas escolhas erradas na direção e montagem do filme.”

Fora esses problemas de ritmo, o roteiro também é muito ruim, e o filme passa metade de seu tempo apresentando personagens de uma forma que você espera ver num jogo de videogame de ação, com os personagens sendo apresentados por um narrador em telas estáticas, com letras garrafais e multi-coloridas mostrando as características e estatísticas dele. Pessoalmente, durante os primeiros vinte minutos eu achei que estava vendo a introdução de algum jogo da série Borderlands, só que sem toda a sagacidade e senso de humor dela e sem nenhum prospecto de que em algum momento eu iria ganhar uma arma para sair atirando em macacos albinos gigantes. E, quando acabamos as introduções e a coisa começa a andar, a impressão que fica é que os roteiristas já estavam é de saco cheio e resolveram utilizar todas as soluções mais clichês possíveis para acabar com o filme logo – clichês esses que ficam ainda piores quando ocorre a mudança de “loucos desalmados” para “bonzinhos no fundo”.

Suicide-Squad (1)

E além desses, temos também os personagens. E claro que, num filme com tantos, alguns seriam um tanto quanto problemáticos. Mas, incrivelmente, essa talvez seja a parte do filme em que os problemas menos atrapalham o todo. E o grande “vilão” aqui – entre aspas mesmo – é o Coringa, o Palhaço, o Jóker. Porque o Coringa de Jared Leto é um palhaço no sentido mais pejorativo da palavra. A única coisa que senti do personagem dele foi…pena. Ficou parecendo um adolescente de 15 anos que se acha muito rebelde porque fez uma tatuagem (de henna) de caveira no braço e contou pra vó que é ateu. Outro personagem que deixa a desejar é o Crocodilo, mas apenas por proporção mesmo. A atuação de Adewale Akinnuoye-Agbaje é até convincente, e ele consegue grunhir e quebrar coisas de um modo bem legal; a maquiagem do personagem também está fenomenal, e ele se parece bastante com o Crocodilo que conhecemos…com exceção do tamanho. O personagem sofre do mesmo mal do Fanático em X-Men: A Batalha Final, e está longe de ser o monstro colossal que é nos quadrinhos. Ver ele ao lado do Pistoleiro de Will Smith e ambos serem da mesma altura e terem praticamente o mesmo porte físico é de dar desgosto.

“Durante os primeiros vinte minutos eu achei que estava vendo a introdução de algum jogo da série Borderlands, só que sem a sagacidade e senso de humor dela e sem nenhum prospecto de que algum momento eu iria ganhar uma arma para sair atirando em macacos albinos gigantes.”

Mas Esquadrão Suicida ainda consegue ter alguns pontos positivos. Apesar do fracasso que é o Coringa, a Arlequina de Margot Robbie é bastante promissora, e só não rouba mais a cena por conta das muitas escolhas erradas na direção e montagem do filme. A atuação de Margot é sensacional e, ao contrário do Coringa, ela consegue sim passar uma vibe de loucura real, e não de chiliques adolescentes. Mas isso tudo é ofuscado pela excessiva erotização da personagem, que a cada cinco minutos é chamada de gostosa por algum dos outros ou então recebe um close da bunda. Meu desejo é que, para os próximos filmes, a Arlequina se aproxime mais da Arlequina que conhecemos e seja menos usada como uma stripper com problemas mentais, já que ela aparenta ser um dos poucos acertos de um filme quase todo errado. Outro acerto (esse praticamente cantado desde que a escolha foi anunciada) é Viola Davis no papel de Amanda Waller. A atriz foi a perfeita encarnação da líder da Argus e conseguiu ser, de longe, a personagem mais apavorante de um filme cheio de super-vilões e assassinos, mostrando que botar moral não é ficar enviando bicho morto pros amigos. E, apesar de não ser tão estupendo quanto Margot e Viola, Will Smith também manda bem como o Pistoleiro – mas, sejamos francos, “mercenário que não erra um único tiro” é praticamente o papel que ele já fez em qualquer filme de ação.

Só vou te machucar muito…

Ao invés de bombar, Esquadrão Suicida é uma bomba, e falha miseravelmente em todos os sentidos – seja no de trazer alguma luz para o Universo Cinematográfico da DC, seja em ser o primeiro filme bom de super-heróis da Warner desde a trilogia do Batman de Nolan. E, pelo jeito, será mais um filme para a lista de “boas ideias estragadas miseravelmente por um estúdio que quer fazer dinheiro a qualquer custo”. E, nesse caso específico, não é estranho falar “seria melhor ir ver o filme do Pelé” – porque mesmo se passando num Brasil em que todo mundo fala inglês, o novo filme do Pelé (que terá Vincent D’Onofrio, o Rei do Crime de Demolidor, como o técnico da seleção brasileira Vicente Feola) parece ser muito melhor do que esse amontoado de clichês e personagens estragados que é Esquadrão Suicida.

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Escrito por Noia

Noia

Estudante de jornalismo da Unesp Bauru. Como cresceu sendo um gordinho nerd que sofre bullying, é viciado em qualquer coisa que possua dragões, naves ou super-heróis, e não tenta nem um pouco fugir do clichê do gordo nerd. Passa muito tempo jogando joguinhos e mais ainda assistindo séries, apesar do desejo oculto de querer usar todo esse tempo para dormir.

300 posts
  • Marcio Roberto

    “O Coringa ficou parecendo um adolescente de 15 anos que se acha muito rebelde porque fez uma tatuagem (de henna) de caveira no braço e contou pra vó que é ateu.” Kkkkkkk perfeito! No fim, esse filme não é exatamente ruim, é apenas mediano. Destaque especial para Margot e Viola, essa última chega realmente a roubar as cenas, é a única ali que poderia ser a “má” de fato, a casca-grossa impiedosa.

  • Junior Zuba

    Assino embaixo!

  • Jonatha Hirt

    Mimimimimimi o filme é divertido… Recalque de fanboy da Marvel, ou eu assisti outro filme

  • João Paulo Quirino

    Não assisti ainda e não ligo pra spoiler, valeu a pena ler essa review, 16 contos o cinema aqui bem economizados hehe.