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Review: Castlevania

Curto, mas muito melhor do que poderíamos esperar

Fazer adaptações de videogame é algo complicado: além da necessidade de transportar uma história interativa para uma mídia não-interativa, mantendo intacta toda a qualidade da obra original para não afugentar a base de fãs já formada, é necessário também fazer essa transposição de um modo que não se torne interessante apenas para o público que conhece os jogos. E, muitas vezes, isso acaba fazendo com que a adaptação se afaste demais do universo dos jogos e crie um novo universo pertinente apenas em si, que lembra em vários momentos aquele que vemos nos videogames mas que, claramente, não é como estamos acostumados a ver nos jogos – e isso mesmo em boas adaptações, como o caso do anime Street Fighter Victory.

Nenhum desses problemas é encontrado em Castlevania.

Além das dificuldades esperadas ao se adaptar qualquer obra de videogame para a TV, Castlevania precisava contornar ainda outra dificuldade bem específica: o fato de ser a adaptação de uma série de jogos que, ainda que continue a receber novos títulos frequentemente, possui uma base de fãs que só consideram como trabalhos de qualidade os jogos lançados entre as décadas de 1980 e 1990 – ou seja, além das dificuldades técnicas era necessário contornar as expectativas de um fandom que há décadas se sente órfão de um trabalho “verdadeiro” na franquia. E, nesse teste, a Netflix passou com louvor.

Apesar de ser um anime, não espere algo muito parecido com Dragon Ball Z ou Naruto; Castlevania se distancia dos nomes mais populares do gênero, trazendo deles apenas a estética, mas com uma narrativa que se assemelha muito mais a de uma série de TV ocidental.  A grande falha da série talvez seja seja apenas sua duração – afinal, 4 episódios de 25 minutos é curto até mesmo para os padrões Netflix – mas que funciona muito bem, fazendo com que qualquer um consiga terminar a primeira temporada numa única sentada.

Aliás, a primeira temporada de Castlevania não é bem uma temporada por si só, mas muito mais um ótimo prólogo de uma série muito boa – que promete ser a segunda temporada, já confirmadas pela Netflix na própria data de estreia.  E, se considerarmos que o jogo na qual a série foi baseada (Castlevania III: Dracula’s Curse, lançado para o NES em em 1989), além de ser bem antigo, não possuía uma história muito amarrada (sendo muito mais baseado em gameplay do que na narrativa em si), faz sentido uma adaptação se focar muito mais na explicação dos eventos do que na ação em si.

Ao contrário do que vemos nos jogos de Castlevania, Drácula não é apenas uma entidade maligna que quer simplesmente destruir a humanidade porque é mau; o Drácula da série possui um motivo – ainda que podemos muito bem falar que ele dá uma exagerada e parece a rainha das drama queens, mas que seja, é um motivo – o que já é um grande avanço do que vemos nos jogos. Mas, além de dar um “norte” para a trama, criar um motivo para o ataque de Drácula ainda ajuda a série em outro ponto: ela humaniza o personagem, desmontando aquele estereótipo de monstro mau por natureza e o transformando num personagem muito mais complexo e interessante, com o qual podemos nos identificar – e isso só ajuda a tornar a série ainda melhor e mais interessante.

A trama se passa no país fictício de Valáquia – o mesmo de Dracula III – num mundo que lembra muito a Europa medieval durante a “Idade das Trevas” dos livros de história, mas onde o elemento sobrenatural faz parte da realidade e do dia-a-dia das pessoas. Mas apesar dos monstros e demônios que assolam o mundo – algo esperado por qualquer um que conhece a franquia Castlevania – a ambientação do mundo em si também é muito bem feita, mostrando uma Valáquia controlada por uma Igreja que se comporta como gangue, com uma hierarquia toda politizada, repleta de homens sedentos por poder e que não sentem o menor remorso em usar o nome de Deus para enganar o povo, para atingir seus objetivos megalomaníacos e que se recusam a aceitar que possuem uma boa parcela de culpa sobre o sofrimento da população – o que, para qualquer um que queira estudar o período, não é muito diferente do que a Igreja Católica fez no mundo real durante essa época. É nesse cenário que conhecemos o trio de protagonistas da série: Trevor Belmont, o último remanescente da Casa Belmont, caçadores de vampiros que, por lidarem com o sobrenatural, foram excomungados pela igreja, perdendo todo seu prestígio, terras e bens – mas que de repente se vê como a última esperança de sobrevivência da humanidade; Sypha Belnades, uma estudante de magia arcana e uma das últimas conhecedoras das lendas sobre Drácula e sobre como ele pode ser derrotado; e Alucard, o filho de Drácula que, ao seguir os ensinamentos da mãe de paciência e compaixão para com os humanos, se viu obrigado a se opor ao próprio pai e como um dos únicos com poder o suficiente para combater sua fúria. Os três também eram os personagens principais de Castlevania III,ajudando a não deixar dúvidas de que a série é uma adaptação direta do jogo de 1989.

E as menções ao jogo não se resumem apenas ao uso dos personagens: a série está cheia de cenários e situações que lembrarão imediatamente os fãs de cenas e cenários do jogo do NES – com até mesmo alguns momentos meio engraçados, com os personagens agindo exatamente como num jogo de ação em plataforma. Somado a isso, o anime ainda é visualmente surpreendente, alinhando o belo e o grotesco como poucos programas –animações ou não – conseguem fazer, muitas vezes deixando o espectador de queixo caído e enojado ao mesmo tempo. A violência também é um ponto positivo: longe de ser gratuita, é usada quase que de modo poético, com excessos que servem para pontuar o quão brutal e insensível é o mundo no qual estamos inseridos.

Toda a trama da primeira temporada de Castlevania funciona como um bom prólogo, nos localizando no universo da franquia, introduzindo os personagens e especificando qual será o conflito que levará a história adiante. Mais do que uma primeira temporada, os 4 episódios liberados para a Netflix trabalham muito mais como o primeiro capítulo de uma grande história que será contada nas próximas temporadas – que, infelizmente, ainda não possuem data de estreia. Mas apesar de ser apenas um “aperitivo” da verdadeira história, Castlevania é um ótimo trabalho, elaborado de forma a parecer interessante até mesmo para aqueles que não conhecem o jogo e não gostam de animes. E, com duração total de menos de duas horas, o único perigo que você corre é de acabar os episódios e ficar com a necessidade de saber como continua a história.

E, pode ter certeza, você terá.

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Escrito por Rafa Noia

Rafa Noia

Estudante de jornalismo da Unesp Bauru. Como cresceu sendo um gordinho nerd que sofre bullying, é viciado em qualquer coisa que possua dragões, naves ou super-heróis, e não tenta nem um pouco fugir do clichê do gordo nerd. Passa muito tempo jogando joguinhos e mais ainda assistindo séries, apesar do desejo oculto de querer usar todo esse tempo para dormir.

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