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Review: American Crime Story: The People v. O.J. Simpson

 

Apesar de ser uma fórmula mágica para quando faltam roteiros originais em Hollywood, não estamos muito acostumados a ver séries de tevê baseadas em eventos reais. Veja por exemplo o caso de Wicked City, sobre assassinos e assassinatos já esquecidos em Los Angeles, cancelada apenas três episódios após a estreia. Também sobre assassinatos em Los Angeles, a primeira temporada de American Crime Story, nova série de antologia de Ryan Murphy, conseguiu o oposto. The People v. O.J. Simpson, baseada no livro The Run of His Life, escrito por Jeffrey Toobin, transformou uma história que todo mundo pelo menos tinha ouvido falar em algo novo, cativante e, provavelmente, um imã de Emmys.

Não há nada na execução de American Crime Story: The People v. O.J. Simpson que seja fácil de apontar buracos. Tudo se encaixa tão perfeitamente que não é exagero dizer que, até agora, essa é a melhor minissérie do ano, e também um dos melhores dramas. Sua história é simplesmente tão incrível e inacreditável que, se não fosse verdade, ela provavelmente não seria feita. Desde a divisão racial, passando pelo sexismo, até os detalhes mais difíceis de serem lembrados, os roteiristas Scott Alexander e Larry Karaszewski conseguiram fazer uma coisa que muitas séries têm dificuldade: encontrar o ritmo e o equilíbrio necessário para contar uma história em dez partes, de forma que cada episódio parecesse completo e ao mesmo tempo, imprescindível para algo maior.

Não existem spoilers, exceto os emocionais

Sim, todo mundo sabe o final. O astro do futebol americano e até então queridinho da América O.J. Simpson seria absolvido dos assassinatos de sua ex-mulher e um amigo dela no que foi chamado de “o julgamento do século”, e nós continuaríamos sem saber o que de fato aconteceu naquela noite na casa de Nicole Brown Simpson. Mas algo sobre a forma como essa história foi contada em The People v. O.J. Simpson deixa claro que não é tanto sobre o ponto de chegada, sobre os finais, quanto é sobre a jornada que pudemos experimentar com esses personagens.

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No segundo episódio, The Run of His Life, somos jogados dentro do Ford Bronco que O.J., interpretado por Cuba Gooding Jr., usou para fugir da polícia após ser acusado de matar Nicole e Ron Goldman. Muita gente se lembrava da cobertura da perseguição na tevê, de uma imagem aérea de uma rodovia sendo liberada apenas para que o melhor corredor da liga americana pudesse chegar em casa para ver sua mãe antes de ser preso. E ainda que a recriação dessa cena aérea tenha sido impressionante, mais ainda foram as cenas dentro do Bronco, enquanto O.J. chora com uma arma apontada para a cabeça. E quando vemos as pessoas pararem em frente uma loja de televisões, ou a decisão de interromper a final de basquete do campeonato nacional sendo tomada pelos chefes da Fox, ou a família de O.J. acompanhando o trajeto, esperando ele chegar, entendemos que em The People v. O.J. Simpson, O Povo é um personagem tão importante quanto o próprio O.J.. A série não é só sobre o julgamento, mas também sobre como o julgamento afetaria as vidas particulares tanto das pessoas diretamente envolvidas quanto de um país que de uma hora para a outra passou a exigir que os cidadãos tivessem seu próprio veredito sobre inocência ou culpa de um ícone americano baseado na cor de sua pele.

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Em uma das melhores instâncias da série, Marcia, Marcia, Marcia, sexto episódio, vamos para casa com a promotora Marcia Clark, vivida por Sarah Paulson. Ela está no meio de um processo de divórcio e em uma briga judicial pela guarda dos filhos, mas naquele o momento o caso está tão entrelaçado com a sua vida que ela não pode se dar ao luxo de desligar a tevê nem quando chega em casa para ficar com o filho. Clark estava sendo esmagada pela defesa e também pela opinião pública, enfrentando um preconceito horrível por ser mulher, mãe, e por ter um corte de cabelo ruim. A série é tão crua ao mostrar como Clark foi vilanizada por motivos tão insensatos que na verdade é a única vez que The People v. O.J. Simpson faz um julgamento de valor sobre seus personagens, apontando o dedo para os responsáveis pelo circo da mídia, com o argumento de que eles também foram responsáveis pelo veredito de inocente. Enquanto todo mundo estava distraído, olhando para a pessoa errada, o Time dos Sonhos, como a defesa era chamada, aparece manipulando testemunhas e impondo a própria agenda. A cena final mostra Marcia Clark enfraquecida, admitindo que ela não sabia como ser o objeto de tanto escrutínio público, quando saber isso não deveria ser parte de seu trabalho.

Leia mais: Marcia Clark conta como imagina o final de American Crime Story: The People v. O.J. Simpson

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Em outro movimento ousado da produção, quando temos 8/10 do caminho andando, a história nos apresenta mais uma dúzia de personagens novos com um episódio dedicado inteiramente ao júri. A Jury in Jail foca nas únicas pessoas que não eram mostradas na tevê, que não estavam (abertamente) sob a pressão da mídia para tomar essa ou outra decisão. Enquanto descobrimos como muitos dos membros do júri, em sua maioria negro, tinham motivos para não poderem estar ali, somos convencidos de quão difícil, senão impossível, era a tarefa de encontrar um júri isento. Individualmente, as consequências psicológicas de se passar oito meses preso em um hotel sem acesso a notícias ou ao mundo lá fora começam a tomar forma e esclarecer um pouco mais sobre os fundamentos da decisão que eles tomariam tempos depois.

Uma experiência imersiva

Ainda que faça apenas 20 anos dos acontecimentos retratados, The People v. O.J. Simpson foi construído como um drama de época, de tão cuidadosos são os detalhes e os marcadores de tempo. Das coisas mais simples, como o figurino, até as mais complexas, como a linguagem utilizada, a pesquisa realizada por Scott Alexander e Larry Karaszewski faz com que nada pareça fora de lugar. Com experiência em biografias, como O Povo contra Larry Flint e Ed Wood, a dupla recriou o tom da narrativa de forma que o roteiro refletisse as circunstâncias globais do caso, sem perder as particularidades que transformam uma história extraordinária em algo compreensível.

Tanto quanto uma trama sobre imperfeições da sociedade, como violência, preconceito e o papel da mídia, em seus momentos mais poderosos, The People v. O.J. Simpson é sobre sentimentos palpáveis, como Robert Kardashian percebendo que seu melhor amigo é um assassino, Johnnie Cochran abdicando de seus princípios morais por algo que ele considerava maior, provar como a polícia de Los Angeles era racista, ou mesmo a amizade-que-não podia-ser-algo-mais entre Marcia Clark e Chris Darden.

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Visualmente, as escolhas de Ryan Murphy e Anthony Hemingway como diretores transpõem para a tela o tom de espetáculo que foi dado a um acontecimento bárbaro. A palidez da Los Angeles dos anos 90 é reaquecida no tribunal, onde a fotografia contrastada e os movimentos ágeis da câmera criam paredes invisíveis entre a defesa, a promotoria, o público e o juiz. A divisão racial é recriada com quadros simbólicos que colocam todos contra todos: a polícia contra O.J., Cochram contra a polícia, a mídia contra a justiça, imagens das discordâncias que já existiam e das que surgiram em escalas diferentes durante o julgamento.

Estrelas irreconhecíveis

Mesmo que você não concorde com as preferências estilísticas de Ryan Murphy, nada de ruim pode ser dito sobre seu talento para montar um elenco. É quase uma pegadinha irônica que The People v. O.J. Simpson esteja tão cheio de rostos conhecidos. Para falar de fama, de popularidade e de reputação, a série traz atores que estiveram bem no centro dessa discussão. John Travolta (Robert Shapiro), David Schwimmer (Robert Kardashian) e Cuba Gooding Jr. (O.J. Simpson) estavam no topo de suas carreiras enquanto o julgamento acontecia de verdade. Eles representam alguns dos ideais que a série argumenta contra. E mesmo sendo tão famosos, suas performances são tão habilidosas que podemos nos esquecer de quem está interpretando e nos concentrar em quem está sendo interpretado.

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Sarah Paulson como Marcia Clark marca mais uma das parcerias acertadas da atriz com Ryan Murphy, em um papel tão importante e central que funcionaria como redenção para a verdadeira Marcia Clark. A dinâmica entre Paulson e Sterling K. Brown, que vive o promotor Chris Darden, de alguma forma deixou que a relação ficcional dos personagens roubasse o show tanto nos momentos sérios quanto nos mais agradáveis em que eles dividiam a tela. A outra estrela do julgamento, Jonnhie Cochram, é interpretada por Courtney B. Vance com tanta segurança que transforma uma pessoa que ficou caracterizada popularmente por suas explosões no tribunal em um personagem tridimensional, explorando suas aspirações e suas polêmicas motivações.

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Até personagens secundários que apenas aparecem em poucas cenas são elevados pela escolha sugestiva dos atores. A princípio as caracterizações de Selma Blair como Kris Jenner, Connie Britton como Faye Resnick e Malcolm-Jamal Warner como Al Cowlings pode parecer uma estratégia de publicidade, mas além de serem interessantes meramente porque os três são bons atores, na verdade criam uma textura a mais de significados no universo criado pela série.

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Com uma história da qual todos sabem o final, é emblemático que a narrativa tenha conseguido jogar luz em fatos que ainda parecem tão atuais. American Crime Story: The People v. O.J. Simpson é provocativa e inteligente ao nos fazer questionar sobre aspectos menos conhecidos do caso, enquanto cria drama, tensão e suspense que fazem com que a assistir seja surpreendentemente divertido. Com certeza seria mais fácil tratar The People v. O.J. Simpson simplesmente como entretenimento de qualidade se não fosse tudo tragicamente verdade. Por esse crime somos todos culpados.

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Escrito por Ana Carolina Nicolau

Ana Carolina Nicolau

Encarou cinco anos de Cálculo pesado para descobrir que preferia as letras aos números. Apesar dos esforços para se concentrar nas telonas, foi capturada pela fascinante tevê do século XXI. Mantém uma relação chove-não-molha com a sétima arte no site take148.net. Atualmente estuda para encontrar a solução ótima da equação "cinema + tevê + vida social = 24h". Tem quase certeza que esse deveria estar na lista dos 7 Problemas do Millennium.

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