Compartilhar, , Google Plus, Pinterest,

Posted in:

A Torre Negra: o filme que esqueceu o rosto do pai

No dia 24 de agosto, eu e Mauricio Daniel – amigo de longa data e também colaborador do Séries do Momento – fomos ver A Torre Negra nos cinemas. Como grandes fãs de Stephen King e com muita coisa para falar sobre, resolvemos fazer uma review em duas mãos, conversando sobre o nossas impressões assim que saímos da sala. E você pode ler nossas impressões sobre o filme logo abaixo.

Participam dessa review:

Rafa Noia

Noia: A Torre Negra. E então, o que você achou do filme?

Mauricio: Achei um filme fraco, e como adaptação pior ainda. Foi uma das piores adaptações que eu já vi no cinema. E mesmo se eu não conhecesse o material base eu iria achar ruim do mesmo jeito. Um filme fraquíssimo, mal editado, mal roteirizado – se bem que é injusto dizer isso vendo o produto final, já que podem ter havido muitos cortes – mas é isso aí. É péssimo, basicamente.

Noia: Então, a gente já foi assistir esperando algo ruim [apesar de ter estreado no Brasil dia 24 de agosto, o filme já está em cartaz nos EUA desde o dia 4 de agosto] porque as várias reviews que saíram no exterior já avisaram a gente da qualidade. Mas, assim, eu não esperava algo TÃO ruim. Apesar de ter visto várias reviews criticando, “metendo o pau”, eu ainda estava esperançoso de que fosse um certo exagero.

Mauricio: Foi uma pancada.

Noia: Mas foi uma pancada feia!

Mauricio: O material base, os livros, dão esperança porque estão entre os maiores romances do Stephen King – certamente o maior em termos de número de páginas, já que é a única história dele dividida em 7 volumes.

Noia: Aliás, eu diria que os livros base é uma das minhas histórias preferidas de todos os tempos, porque eles conseguem misturar duas coisas que eu adoro: épico de fantasia e narrativa pulp de filme de ação. E mesmo considerando A Torre Negra como apenas um filme de ação raso, ele ainda assim consegue ser um filme de ação raso bem ruim.

Mauricio: E claro, isso é o tipo de coisa que material promocional adora se gabar, mas sabendo que o próprio King deu o seu aval – se bem que o cheque que ele recebe por esse tipo de adaptação garante qualquer tipo de aval –  mas saber que ele deu aval, deu a benção dele pra um projeto desse jeito sair do papel é frustrante demais. Sem contar que esse projeto já está cozinhando há coisa de cinco anos – pelo menos que a gente, o público, sabe. Ontem mesmo, naquelas lembranças do Facebook, eu vi uma postagem minha de 2014 falando da escolha do elenco, extremamente esperançoso, achando que ia ser uma série de pelo menos uns 4 filmes. Eu não esperava um absurdo desse não. Um filme único – de uma hora e meia! – e, cara…a sensação é de tempo perdido. Perdi uma hora e meia da minha vida. Prefiro até mesmo conversar sobre o filme do que assistir ele.

Noia: E o fato de que o King deu o aval dele não só pra sair do papel, mas ele viu o filme já pronto e falou que era muito bom faz com que eu comece seriamente a questionar o fato de se o Stephen King não está ficando gagá e perdendo a sanidade.

Mauricio: Talvez todos esses anos de produtividade causaram algum dano no cérebro do cara, não sei. Muito normal ele nunca foi mas, sei lá, alguma coisa tá errada.

Noia: Mas agora falando do filme em si: ele acaba não se baseando em nenhum livro em específico, né? Ele meio que tenta condensar os 7 livros em um único filme, que é onde ele já começa errado. E assim, a impressão que eu tive é que jogaram na mesa dos roteiristas os 7 livros da série e falaram “olha, a gente precisa condensar tudo isso em um filme de uma hora e meia”, eles leram um pouco do primeiro livro – que é o mais curtinho – leram o resumo da contracapa dos outros e inventaram todo o resto.

Mauricio: É decepcionante, e fica claro que a produtora/distribuidora não teve fé no projeto – fica claro não, mas é a impressão que eu tive, que a produtora não acreditou que ele poderia render uma série de filmes lucrativos e realizou todo tipo de veto para transformar essa história num único filme.

Noia: Sim, eu lembro de alguns anos atrás, quando ainda não tinha nada confirmado, eram apenas rumores de que a Sony estava pensando em fazer um filme da Torre Negra, e nessa época os rumores apontavam para uma trilogia.

Mauricio: Ah, surgiram vários rumores nessa época. Até depois de confirmado surgiu o rumor de que, além do filme, a Sony estava pensando em fazer também uma série de TV – e até usando os mesmos atores do filme. E mesmo que isso se torne realidade, não sei nem se os atores deveriam aceitar isso, pois são todos muito bons, de primeira linha, e esse é praticamente o tipo de filme que mancha curriculum.

Noia: Falando nos atores, tivemos muitos críticas quando da escolha do Idris Elba para o papel do Roland – críticas com conotações racistas, já que o único motivo que, segundo esses críticos, o Idris Elba não poderia ser o protagonista é porque ele é negro e o Roland do livro é descrito como uma cópia do Clint Eastwood.

Mauricio: Aliás, o Idris Elba parece estar se tornando especialista em pegar papéis que os brancos não querem que ele pegue, e simplesmente destruir nesses papéis. E nada de novo aqui também, ele ficou muito bem no filme.

Noia: O Idris Elba é um ótimo Roland. Mesmo que o roteiro não ajude muito: é muita trama apressada, muita coisa sem explicação acontecendo, o relacionamento dele com o Jake é muito raso e apressado. Você não entende muito bem porque eles se uniram tanto.

Mauricio: O filme força a barra na perdas né – os dois passaram por perdas parecidas, e isso foi meio que o suficiente para eles se unirem. Me lembrou um caso recente de ligação entre personagens totalmente inesperado e injustificado que é aquele do Batman vs Superman, onde os dois inimigos mortais de repente viram aliados porque ambos tem a mãe com o mesmo nome. Não chega nesse nível de absurdo, mas é algo que caminha nessa direção.

Noia: Mas fora isso, o Idris Elba ficou muito bem como Roland. Você consegue olhar pra ele e enxergar o personagem do livro ali na tela.

Mauricio: Sim, e tenho certeza que quem for ler os livros depois de assistir A Torre Negra, mesmo com o King descrevendo o personagem com as feições do Eastwood, vai ver o Idris Elba ali. Então, se tem alguma coisa bastante positiva sobre o filme é o Idris Elba.

Noia: Pois é, se o filme tem algo positivo, isso tem total relação com o Roland. Não só ao Idris Elba em si como o personagem, mas as cenas de ação são muito fiéis ao modo que é narrado nos livros. O Roland lutando, aquela coisa meio herói de videogame, foi passado de modo fenomenal pra tela. A cena final de ação é MUITO boa, mesmo.

Mauricio: Fora o combate final em si, a cena final é realmente muito boa. Mas o combate final é extremamente desapontador. É uma coisa que o filme constrói de uma maneira que você fica achando que pelo menos isso vai se salvar mas…não. É tão ruim que eu não sei nem como explicar.

Noia: Aliás, o único problema do Roland é algo que também podemos culpar o roteiro. Apesar de o personagem ser muito bom e fiel ao livro, a motivação dele para perseguir a Torre Negra é totalmente deturpada. É, aliás, até o completo oposto daquilo que nós vemos nos livros.

Mauricio: Sim. Enquanto nos livros nos temos o Roland como um personagem que dispensa a si mesmo em nome de uma causa, no filme ele é um personagem que dispensa todo o resto em nome de si.

Noia: Ele deixa de ser o arquétipo do herói para se tornar o arquétipo do anti-herói.

Mauricio: Então, assim, é desapontador do ponto de vista da personalidade do personagem, mas preciso repetir que, fora essa mudança criada pelo roteiro, o Roland é o grande ponto positivo do filme, e o Tom Taylor como Jake também ficou bom.

Noia: E nele também o roteiro dá uma atrapalhada, criando toda uma história de ele ser alguém especial, “o escolhido”, criado apenas para que o roteiro tenha uma certa lógica interna. Mas fora isso, ele também nos remete claramente ao Jake dos livros.

Mauricio: Sim, um bom ator mirim. Tem futuro esse garoto. E talvez seja outra coisa boa que podemos tirar desse filme: é bem possível que a carreira desse menino deslanche daqui pra frente. Ou pode ser que ela acabe por aqui mesmo, que esse também é o tipo de filme que acaba com carreiras.

Noia: Quem a meu ver não foi bem no filme foi o Matthew McConaughey mas, novamente, muito mais por culpa do roteiro do que por conta do próprio ator. O Homem-de-Preto – que no filme é chamado de Walter – é um vilão tão raso e caricato que parece saído das histórias da Turma da Mônica.

Mauricio: E isso é triste porque eu considero ele como o maior ator de Hollywood na última década – ou a melhor revelação, porque ele não é um ator novo, mas até os últimos anos vinha sendo subaproveitado. E é uma decepção porque temos pela primeiras vez contracenando dois dos maiores atores dos últimos anos e o resultado é de uma qualidade muito baixa. E estragado não pela falta de esforço dos dois, isso tenho certeza que não foi, mas por uma série de fatores como cortes, pressão da Sony, boicotes que a produção sofreu ao longo das gravações, enfim, tudo o que já foi documentado pela imprensa na época da estreia nos EUA. Mas, claro, esse é o tipo de problema que praticamente qualquer filme passa e vários se dão bem mesmo com toda essa pressão, então não dá também pra colocar a culpa toda nesses fatores.

Noia: Pra fechar o assunto: se você está pensando em assistir A Torre Negra nossa dica é – não veja! Pega o dinheiro do ingresso do cinema e vai atrás dos livros da série, que terá um retorno muito melhor do investimento.

Mauricio: Nesse ponto, se existe algum saldo positivo nesse filme é fazer com que as pessoas leiam os livros, mais pra tentar entender porque alguém elogiaria qualquer coisa que tenha a ver com esse filme.

Noia: E mesmo quem já leu, fica com vontade de ler de novo pra tentar esquecer tudo aquilo que viu no cinema.

Mauricio: Então quem sai ganhando nisso tudo aí é o Stephen King, que além do cheque gordo que já recebeu provavelmente irá vender mais livros da Torre Negra nos próximos meses.

Compartilhar, , Google Plus, Pinterest,

Escrito por Rafa Noia

Rafa Noia

Estudante de jornalismo da Unesp Bauru. Como cresceu sendo um gordinho nerd que sofre bullying, é viciado em qualquer coisa que possua dragões, naves ou super-heróis, e não tenta nem um pouco fugir do clichê do gordo nerd. Passa muito tempo jogando joguinhos e mais ainda assistindo séries, apesar do desejo oculto de querer usar todo esse tempo para dormir.

317 posts