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O finale de HTGAWM e o problema com os cliffhangers na era moderna

“Quem matou Odete Roitman?”. Isso é um cliffhanger. Algo que vai te deixar, emocionalmente, “à beira do abismo”. Uma pergunta tão importante para a trama que fará com que as pessoas para o próximo capítulo. Um acontecimento tão significativo que as pontas só vão se juntar à luz dessa resposta. E um estímulo tão grande à curiosidade que, quando bem feito, vai deixar as pessoas falando por dias, ou semanas, ou meses. Lembrou de algo? Então vamos por partes.

(Spoiler: foi a Leila. E esse texto contém outras identidades secretas de assassinos e assassinados que você talvez não queira saber se não está em dia com: How to Get Away with Muder, Scandal, The Leftovers, The Walking Dead e Game of Thrones)

O truque barato de matar

O capítulo final da segunda temporada de How to Get Away with Murder, Anna Mae, teve uma estrutura bem parecida com o finale do ano anterior. Segredos foram revelados em várias escalas, enquanto novos mistérios foram criados para o próximo ano. Na esfera maior, descobrimos o porquê de Frank devia um favor a Sam, que o levou a matar Lila. A nível de temporada, o caso dos Hapstall foi resolvido, deixando um Caleb suicida e um monte de acordos de imunidade para os pupilos de Annalise. As perguntas levantadas no início do episódio, sobre o paradeiro de Annalise e a identidade do informante da polícia, tiveram soluções rápidas. E na cena final, vemos o recém apresentado Wallace Mahoney morrer assassinado com um tiro na cabeça, o que nos leva a um Wes incrédulo, com o rosto sujo pelos miolos do pai, e a uma pista sobre o começo da terceira temporada.

Essa estrutura tem algumas coisas estranhas. Primeiro porque não tem nenhuma outra série na tevê matando pessoas como em um jogo de Detetive. Talvez seja estranho porque ainda não entendemos direito o que HTGAWM anseia ser. Apesar do drama jurídico e dos crimes misteriosos empurrarem a série para frente, o que vem na cabeça é a cena na qual Viola Davis tira a peruca. A história é tão carregada emocionalmente, com tantos atores talentosos tendo conversas tensas e intensas, que o caso da semana ou da temporada serve mais como combustível para se chegar até essas cenas do que para construir um suspense criminal com uma resposta do tipo “Wes, na biblioteca, com a estátua”.

As vezes a série parece querer testar a premissa de que, sob as condições certas, qualquer um pode virar um assassino. Estranho, porque a quantidade de sangue espalhada é no mínimo uma distração dessa ideia. Quem matou Sam? Quem matou Lila? Quem matou Rebecca? Quem matou a mãe de Wes? Quem matou os Hapstall? Quem matou a promotora do caso Hapstall? Quem matou a mãe do filho bastado do papai Hapstall? E agora, quem matou Wallace Mahoney? Isso pode soar mais como “sob quaisquer condições, todos são assassinos”, e não ajuda que as vezes as condições certas sejam ser um psicopata problemático.

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Mas o que é mais estranho em Anna Mae é que tivéssemos que terminar com a morte de Wallace contada como se fosse não só um gancho narrativo, mas um grande gancho de público. Talvez isso tenha funcionado para parte do público. Para mim não. Vamos recapitular o que sabemos sobre o pai de Wes. Wallace estuprou, ou pelo menos manteve uma relação abusiva, com a mãe de Wes. Ele também mandou matar Annalise para que ela não colocasse o filho assassino – IRMÃO DE WES! – na cadeia. Ele nunca quis saber de Wes, mesmo depois que a mãe dele se matou, e ele pagou muito dinheiro para transformar nosso querido Frank em um traidor. Então depois da morte de Wallace eu estava mais pensando “que bom que ele morreu, bola para frente, voltemos ao romance de Michaela e Asher”. Estranho.

A semelhança entre os dois season finales, I’ts All My Fault e Anna Mae, são evidentes em termos de twists e resoluções, mas quanto à morte final, há uma diferença significativa. Rebecca era uma personagem ativa na primeira temporada: ela tinha uma trama própria, mantinha um relacionamento com um dos personagens principais e tinha uma personalidade controversa, o que fazia dela senão importantíssima, pelo menos interessante. Esse é o tipo de morte que poderia fazer mudar de ideia alguém que considerasse parar de ver HTGAWM no fim da primeira temporada. Enquanto isso, o cliffhanger de Wallace funciona mais pelo impacto visual do que como uma ponte narrativa.

O poder do choque na tevê aberta

Os cliffhangers são velhos companheiros das séries de tevê. É esperado que praticamente todos os finais de temporada terminem em algum tipo de promessa de continuação. Mas mesmo hoje, quando a forma de ver tevê mudou completamente, eles ainda são tratados como o motivo principal pelo qual as pessoas voltarão a ver as séries, meses depois, ignorando o fato de que os fãs voltam não por causa, mas independente dele. Nos tempos modernos, os cliffhangers soam mais como insultos do que como atiçadores de curiosidade. Se uma história precisa tanto de um momento final bombástico para fazer o público voltar é porque o que veio antes não é o forte o suficiente.

A comoção em torno de um cliffhanger se tornou uma tática tão importante para o marketing das séries que muitas temporadas são quebradas ao meio justamente para que se crie a janela de tempo na qual é esperado que essa expectativa cresça. Esse segundo ano de How to Get Away with Muder teve um midseason finale conturbado. What Did We Do? trabalhou com uma estrutura parecida com a dos finales, de forma que poderia facilmente ter se passado por um season finale, não fosse o caso dos Hapstall continuar sem solução. Deixando novas revelações pela metade, o episódio funcionou tão bem porque abriu pequenos buracos em todas as tramas que eram desenvolvidas no momento, em vez de guardar um único susto para o final.

Foi um caso bem diferente de Scandal, uma das irmãs de HTGAWM na Shondaland. Depois de brincar por cinco temporadas com os tapas e beijos de Olivia e Fitz, seu midseason finale, Baby, It’s Cold Outside, colocou um ponto final (ponto e vírgula) na relação deles, coroou o início da campanha da senadora Mellie para presidente com uma fantástica obstrução no senado, e deixou que Olivia protagonizasse um dos grandes momentos na história recente da tevê aberta americana: uma mulher bem-sucedida fazendo um aborto simplesmente porque não queria ser mãe. Esses momentos finalizaram as maiores tramas da temporada, deixando o espectador livre para decidir se aquilo era um final ou não, e com a certeza de que se ele voltasse, seria para ver uma história completamente diferente. E por que não voltaria? Por que dessa vez ninguém foi deixado a beira da morte?

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Não é difícil entender porque um programa como How to Get Away with Murder aposta em grandes cliffhangers para ficar vivo (é mais difícil entender porque Scandal as vezes não o faz). Essas séries precisam ser assistidas ao vivo, já que a ABC, uma emissora aberta, sobrevive principalmente em função dos anúncios veiculados no horário nobre. Não tem nada que funcione melhor para um público em conjunto do que a resolução do assassinato de um personagem principal, o “Quem matou?”, ou “Whodunit”, em inglês, que já é até nome próprio de um recurso narrativo. Não é à toa que a própria ABC incentiva que as pessoas postem pensamentos desconexos em letras maiúsculas no Twitter durante o episódio, ao invés de incentivar que elas prestem atenção no que estão vendo. O #TGIT (graças a deus é quinta) é um fenômeno que domina as noites de quinta e que cresce mais a cada cliffhanger, e se você quer fazer parte disso, é preciso ver o episódio ao vivo.

Sem tempo para o susto

A longo prazo, qual episódio se mantém melhor? As loucas reviravoltas de um season finale que precisa criar um burburinho que dure seis meses ou as calmas resoluções de um midseason finale que finge ignorar essa necessidade? Essa pergunta é recente, e tem a ver com como a forma como as pessoas assistem tevê tem moldado a forma como as pessoas fazem tevê. E isso mudou muito nos últimos anos. Ninguém é “obrigado” a assistir ao vivo porque corre o risco de não haver reprises. Quase imediatamente após a primeira transmissão, os episódios estão disponíveis em plataformas onlines. E estamos falando apenas das completamente legais, ignorando a facilidade da pirataria. Com a quantidade de séries passando ao mesmo tempo, a memória e capacidade de atenção limitadas do ser humano, tem gente que prefere esperar um bloco de episódios para só então ficar em dia, e algumas pessoas preferem até esperar a temporada acabar. As mais radicais escolhem ver a série completa antes do início de seu último ano para não ter que lidar com o intervalo anual entre as temporadas.

Isso quer dizer que, apesar da televisão ter a vantagem de poder ter uma resposta do público quase imediata e a nível de episódio, cada vez mais séries de tevê abdicam desse privilégio para serem pensadas como longos filmes. E não é só a Netflix que não quer sua opinião sobre o rumo da temporada. Mesmo canais de assinatura tradicionais estão experimentando com novas formas de divulgação: a comédia policial Angie Tribeca teve seus dez episódios da primeira temporada transmitidos em loop por 25h na TBS. Nesse formato, o cliffhanger ou perde o sentido ou perde o impacto, e o único espaço possível para que ele exista é na última cena do último episódio, e mesmo assim, não vai funcionar se o resto da temporada, que ainda está fresco, não for bom o suficiente para servir de gancho como um todo.

Quando não é necessário, mas é divertido

Um cliffhanger específico foi usado à exaustão em 2015. Em um intervalo de apenas duas semanas, tanto The Walking Dead quanto The Leftovers trocaram o “quem matou?” por “morreu mesmo?” em episódios importantes da temporada. A suposta morte de Glen, o caçador de zumbis, foi vista como um movimento ousado. Primeiro criou-se polêmica simplesmente por ter acontecido, e semanas depois, quando foi explicada, por na verdade não ter acontecido. A internet explodiu, mas os episódios entre a criação e a resolução do mistério não viram aumento de audiência. Já o destino de Kevin foi resolvido com apenas um episódio de diferença, sendo que International Assassin, durante o qual Kevin estaria “morto”, foi um dos episódios mais comentados e mais vistos da segunda temporada de The Leftovers.

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Essas séries estavam seguindo os passos de Game of Thrones, o maior hit do ano, que apenas alguns meses antes tinha finalizado seu quinto ano com uma jogada de marketing imensa em torno da (suposta) morte de Jon Snow. Só que o seguinte: a HBO e a AMC são grandes redes de tevê por assinatura, que funcionam com uma política reduzida de anúncios e intervalos, que dão tanta importância à qualidade da narrativa quanto aos números de audiência. Então se mesmo séries sob um regime de mais liberdade insistem em apresentar cliffhangers, isso sugere que eles poderiam seriam um mecanismo importante na trama, ao invés de um simples recurso barato para atrair público?

Sim e não. Como a curiosidade sempre será um dos maiores fracos do ser humano, faz parte uma história bem contada ser capaz de construir suspense e brincar com essas emoções. Para produtoras como a HBO, AMC ou a Netflix, que contam com uma base de fãs que não precisa desses grandes momentos ou twists para continuar sendo fã, não é apenas sobre aumentar a audiência de seus programas a cada episódio, mas sobre fazer com que aqueles que o assistirem falem sobre ele. É sobre fazer com que aquela série seja parte da conversa, de um cenário cultural em um plano maior. E para isso, não importa se você assiste na primeira vez que for ao ar, na semana seguinte ou no próximo mês, contanto que quando finalmente assistir, tenha vontade de perguntar “Mataram mesmo o Jon Snow?”.

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Escrito por Ana Carolina Nicolau

Ana Carolina Nicolau

Encarou cinco anos de Cálculo pesado para descobrir que preferia as letras aos números. Apesar dos esforços para se concentrar nas telonas, foi capturada pela fascinante tevê do século XXI. Mantém uma relação chove-não-molha com a sétima arte no site take148.net. Atualmente estuda para encontrar a solução ótima da equação "cinema + tevê + vida social = 24h". Tem quase certeza que esse deveria estar na lista dos 7 Problemas do Millennium.

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