Compartilhar, , Google Plus, Pinterest,

Posted in:

Porque aquele plot twist de Scandal foi a pior coisa (Ou: porque larguei Scandal)

 

Nos últimos anos, minha briga com Scandal foi sempre a mesma. Apesar das duas primeiras temporadas serem cativantes e bem escritas, depois disso a série não conseguiu evitar que a narrativa entrasse em um ciclo que se repetia a cada meia temporada. Mas no episódio da última quinta, Thwack!, a série finalmente decidiu sair do espiral para seguir um caminho diferente, e foi tão ruim que eu desejei que tivesse continuado exatamente igual.

Olivia (Kerry Washington) sempre foi uma personagem ambígua, mas que bom anti-herói não é? Ela insistia em vestir o white-hat, em ser do “Bem”, mesmo enquanto acobertava assassinatos, roubava os votos em uma eleição ou mantinha um caso com o homem mais poderoso do planeta. Essa pode não ser uma definição universal de bem-com-letra-maiúscula, mas em um mundo onde a mãe da protagonista é uma terrorista, e o pai é chefe de uma organização secreta com licença para matar, definições universais não se aplicam. E o espectador se acostuma com isso. Se uma série é divertida e viciante o suficiente, não importa se a história é sobre a máfia, drogas ou qualquer outra coisa que poderia ser considerado um desvio de caráter, o público adapta seus princípios para tornar o universo da série aceitável.

Leia mais: House of Cards é chato – e isso é ótimo

Scandal sempre fez isso muito bem. Por exemplo, eu não fiquei completamente chocada quando Fitz decidiu matar uma juíza da Suprema Corte sufocada com um travesseiro. Na verdade, a situação foi tão plausível que de tempos em tempos eu tenho que me lembrar que estamos falando de (mais) um presidente assassino. Mas tudo isso, todos as mortes, todas as mentiras, e até todas as vinganças pessoais, eram feitas de acordo com a barreira moral que a série seguia. As vezes eram decisões ruins, mas necessárias para garantir o bem do planeta, ou da América, ou até do próprio umbigo, se fosse para oferecer redenção a um personagem.

Quando Huck arrancou os dentes de Quinn, foi brutal. Mas foi também alinhado com a ideia que Scandal propõe de justiça: todos podem fazê-la com as próprias mãos, porque é a única forma de se punir crimes que não podem ser julgados. Mas mais importante, quando os personagens decidem por algo tão drástico, isso os afeta para sempre. Aqueles dentes influenciaram todas as decisões de Huck daí para frente, e Quinn, como membro do esquadrão do bem, aprendeu a lição e seguiu em frente, melhor, mais esperta, mais do bem.

Então Thwack! acontece. Scandal já estava construindo há um bom tempo a possibilidade de Olivia finalmente se juntar ao clube dos matadores. Eu abracei a ideia porque é a progressão natural de uma personagem que se nega a ser filha de peixe do pai assassino. É sobre o dilema. Precisa ser. É sobre o que há de diferente entre duas pessoas com a mesma capacidade de matar. É sobre as linhas tênues entre o bem e o mal, entre o white-hat e o black-hat. Foi o que fez Scandal uma boa série, independente de seus arcos melodramáticos e seu desdém cotidiano pela vida humana.

bscap0001

Não foi o assassinato que me tirou da história. Andrew foi o melhor (pior) vilão da quarta temporada. Olivia foi provocada, teve um ataque de raiva e bateu com uma cadeira de metal na cabeça do seu sequestrador. Podemos compreender isso, no universo de Scandal. A série me perdeu naquele último momento, quando Olivia dá mais um golpe. Não porque ela precisava, mas porque queria. E me perdeu mais ainda na sua reação. Ou na falta dela. Olivia é white-hat, ela é a mocinha. Mocinhas se quebram quando têm que matar alguém. Mesmo quando o alguém “merece”. Mocinhas entram em modo-Huck quando têm que matar alguém. Mesmo quando o alguém é responsável pela pior semana de sua vida. Mocinhas não ficam orgulhosas quando percebem que filhas de peixe, peixinhas são.

Scandal era sobre tudo de ruim que Olivia podia fazer e ainda assim não ser tão ruim quanto seu pai. Thwack! é sobre Olivia se sentindo confortável com a comparação. Uma série sobre alguém que mata porque tem genes assassinos para culpar, essa é uma série que eu não quero ver. Eu posso voltar para ver Olivia e Fitz juntos outra vez (afinal ninguém consegue deixar ShondaLand para trás para sempre). Eu posso voltar para ver uma história de amor em uma série sobre gente má. Mas essa baboseira de “a maldade tá no sangue”, isso não. Scandal não conseguiu estragar meus princípios morais tanto assim.

Compartilhar, , Google Plus, Pinterest,

Escrito por Ana Carolina Nicolau

Ana Carolina Nicolau

Encarou cinco anos de Cálculo pesado para descobrir que preferia as letras aos números. Apesar dos esforços para se concentrar nas telonas, foi capturada pela fascinante tevê do século XXI. Mantém uma relação chove-não-molha com a sétima arte no site take148.net. Atualmente estuda para encontrar a solução ótima da equação "cinema + tevê + vida social = 24h". Tem quase certeza que esse deveria estar na lista dos 7 Problemas do Millennium.

98 posts