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O que fazer agora que você terminou Making a Murderer

Via take148.net

Nos últimos meses, uma série criminal se tornou a nova obsessão do mundo (ou da parte do mundo que tem acesso à internet). Making a Murderer, produzida pela Netflix, conta com 10 episódios documentais sobre Steven Avery, um morador do estado de Wisconsin que foi julgado e condenado por estupro e passou 18 anos preso, até que novas evidências de DNA provaram sua inocência. Depois de solto, Avery abriu um processo de 36 milhões de dólares contra o condado, o xerife e o promotor, e estava prestes a ser pago quando foi preso de novo, dessa vez acusado de assassinato.

A docu-série trouxe uma legião de novos fãs para o fenômeno do true crime. Alguns se contentaram em tweetar sobre o incrível trabalho dos advogados de Avery, enquanto outros viraram verdadeiros detetives de sofá, discutindo teorias e provas contra outros suspeitos no Reddit. Mas o que Making a Murderer realmente inspirou na grande maioria de seus espectadores foi uma desconfiança absoluta do sistema de justiça, das autoridades, da mídia e da opinião pública, e um certo fascínio que vem com experiência de passar alguns dias assistindo os piores dias da vida de Steven Avery se desenrolarem em frente aos nossos olhos.

Embora maratonar Making a Murderer possa causar fortes emoções e pedir alguns dias de contos de fadas em seguida, pode também ser viciante. Para aqueles que estão sentindo uma espécie de abstinência de histórias nas quais a vida real supera a ficção, separamos algumas obras para preencher esse vazio.

E não se preocupem: querer ver toda essa lista em uma semana não indica (necessariamente) que você tenha tendências psicopatas.

The Starcaise (2004)

1

Soupçons, Death on a Staircase ou The Staircase foi a primeira série de true crime que chamou atenção do público e dos críticos pela execução artística de seus oito episódios. O diretor francês Jean-Xavier Lestrade havia acabado de ganhar o Oscar de Melhor Documentário por Murder on a Sunday Morning, uma história criminal do tipo lugar errado, hora errada que envolvia preconceito racial, preconceito de classe e, assim como no caso de Steven Avery, uma acusação equivocada.

Para o seu próximo projeto, Lestrade achou um caso em circunstâncias quase inversas. Em uma noite do verão de 2001, o autor Michael Peterson ligou para a polícia pedindo uma ambulância para sua mulher Kathleen, que tinha caído das escadas. Quando o resgate chegou, a mulher já estava morta, e a quantidade de sangue era inimaginável. A polícia imediatamente desconfiou da versão de Peterson e ele foi indiciado pelo assassinato da esposa. É quando Lestrade começa suas filmagens. Com acesso total à casa da família e às reuniões dos advogados, o diretor testemunha a “criação” da versão da defesa. Ao ver Kathleen sangrando ao pé da escada, Peterson assumiu que a mulher tinha caído, mas ele não tinha visto o acidente. Era possível que aquela quantidade de sangue viesse de uma queda?

O olhar de Jean-Xavier Lestrade é quase filosófico e suas perguntas líricas certamente são ajudadas pelas respostas poéticas e o charme de Peterson, que discorre sobre os acontecimentos com uma franqueza sedutora. O autor era rico, famoso e respeitado, e seu status entra na história não só por chamar a atenção da mídia, mas pelas estratégias de defesa que só um acusado com seu poder aquisitivo seria capaz de comprar, tudo, inclusive valores, colocado abertamente para a câmera. O julgamento é impressionante, à medida que vira uma guerra entre os especialistas forenses da defesa e da promotoria e coloca à prova o papel da (frágil) ciência nas investigações. É uma jornada intensa, mas The Staircase abre as portas para a incrível história de uma família ironicamente unida por uma morte e destruída por outra, e enquanto não tenta convencer o espectador da inocência ou culpa de Michael Peterson, a série questiona tudo que pensamos que sabemos sobre evidências, coincidências, e, por que não, psicopatas.

[Spoiler]

Existe uma continuação da série em formato de longa. Last Chance mostra os últimos momentos de Peterson na prisão, enquanto seus advogados lutam na justiça por um novo julgamento, o que conseguem. Quando esse novo julgamento acontecer, Lestrade diz que estará lá para filmar a terceira parte do caso.

The Jinx: The Life and Deaths of Robert Durst (2015)

5

Esse foi um dos maiores hits do ano passado nos Estados Unidos, mas quando finalmente foi transmitido pela HBO no Brasil, já tinha perdido um pouco da sua força, talvez porque Robert Durst era um desconhecido por aqui, enquanto tinha protagonizado um super escândalo por lá.

Durst é herdeiro de um império milionário em investimentos imobiliários e sua família fazia parte da tradicional high-society nova-iorquina. Eles estavam acostumados com aparições na imprensa, mas não pelo motivo que realmente trouxe o nome Durst para a roda. Em 1971, Kathleen (que coincidência, hein), a esposa de Robert Durst, foi vista pela última vez por alguém sem ser o marido saindo de uma festa na casa de uma amiga. O caso abalou a família Durst e teve uma cobertura farta na mídia, mas a polícia nunca conseguiu chegar a uma conclusão sobre o desaparecimento. Com o passar dos anos, a tragédia começou a parecer não tão acidental e as suspeitas recaíram sobre o marido. A reabertura do caso provocou uma reviravolta na vida de Durst, criando as circunstâncias perfeitas para os outros crimes que ele cometeu, incluindo a morte de um vizinho, pela qual ele se declarou culpado.

Assim como Lestrade, os diretores de The Jinx já eram simpatizantes do true crime. Andrew Jarecki e Mark Smeling ficaram conhecidos pelo indicado ao Oscar Na Captura dos Friedmans, uma exploração íntima dos vídeos de família de pai e filho acusados de pedofilia e estupro. A dupla também já tinha atacado a história de Durst em Entre Segredos e Mentiras, uma versão ficcional do desaparecimento de Kathleen estrelada por Ryan Gosling e Kirsten Dunst. Não é preciso dizer que a expectativa em cima de um documentário sobre o caso era grande.

O processo criativo de Jarecki e Smeling em The Jinx foi alvo de críticas, justamente por ser criativo demais com o momento que mais pedia objetividade, mas as controvérsias são compensadas pela fotografia elegante e pelo caráter sombrio de Durst. Não é à toa que as melhores cenas dos seis episódios da série são quando Jarecki acerta o gatilho que faz Durst disparar a falar. Os diretores então se resguardam e deixam Durst dominar a cena, talvez por tempo demais, o que nos dá uma perspectiva aterrorizante – e fascinante – do tipo de lógica que se passa na mente de um assassino confesso.

American Crime Story: The People v. O.J. Simpson (2016)

6

Existem vários documentários sobre o julgamento de O.J. Simpson, a estrela do futebol americano que foi acusado de matar a ex-mulher e um amigo dela em 1994, mas essa versão ficcional é a que você vai querer ver primeiro. É também a única versão ficcional de uma história real dessa lista, mas só porque, além de ser uma extraordinária hora de tevê, tem a mão de dois caras muito bons em fazer versões ficcionais de histórias reais. Scott Alexander e Larry Karaszewski são responsáveis por cinebiografias de calibre, como O Povo Contra Larry Flynt, Ed Wood, Homem na Lua e, mais recentemente, Grandes Olhos. Agora eles tomam emprestado do livro The Run of His Life: The People v. O. J. Simpson, escrito pelo jornalista Jeffrey Toobin, para contar os detalhes menos conhecidos do que foi um dos julgamentos mais conhecidos da história recente dos Estados Unidos. A série, parte de uma antologia, também tem Ryan Murphy como produtor executivo e diretor, o que se não significa mulheres de duas cabeças e outras criaturas bizarras, ao menos garante um elenco de peso, encabeçado por Cuba Gooding Jr., Sarah Paulson, David Schwimmer e John Travolta.

O que chama atenção em The People v. O.J. Simpson é que um dos aspectos menos interessantes é o crime em si. Claro, nos apresentam o suficiente para entendermos o caso, acompanharmos o julgamento e até formarmos uma opinião, mas, diferente da maioria daqueles documentários, a série é sobre o Povo tanto quanto é sobre Simpson, o que significa dedicar um episódio inteiro ao tratamento dado à promotora Marcia Clark simplesmente porque ela nasceu mulher, assim como um episódio inteiro à perseguição do Ford Bronco que Simpson dirigia, um evento televisionado ao vivo que dividiu o país entre torcedores da polícia e torcedores do astro exatamente como se fosse a final do campeonato de basquete que tinha sido interrompida minutos antes para dar espaço à cobertura do caso.

Talvez essa versão não tenha a capacidade (e nem a intenção, por motivos que logo ficam óbvios) de interferir com os resultados daquele processo, diferente de alguns dos itens nessa lista. Mas ao passo que Alexander e Karaszewski recriam a narrativa tanto para a geração que acompanhou na época quanto para um público que só tem fracas memórias de infância, a discussão sobre racismo, fama e mídia é reaberta em um momento em que o mundo precisa mais de exemplos do que de lições. Não tenha dúvidas: escolher contar essa história agora é um ato político e só por isso já impõe sua importância, mas o fato de ser tão bem contada cinematograficamente é uma conquista quase tão importante quanto.

Trilogia Paradise Lost (1996, 2000, 2011)

3

Muitos documentários de true crime conseguem de alguma forma interferir na vida dos envolvidos, talvez trazer a atenção da mídia, talvez fazer o sistema de justiça andar mais rapidamente. Mas esses são processos longos, e pode levar anos até que alguma medida seja realmente tomada. Foi exatamente assim com Paradise Lost: os filmes ajudaram três garotos a saírem da prisão, só que já tinham se passado 18 anos que eles tinham sido condenados, e 16 anos desde o primeiro filme, Paradise Lost: The Child Murders at Robin Hood Hills.

Em 1993, três crianças foram encontradas em um bosque na cidadezinha de West Memphis, nos Estados Unidos. Os meninos, de oito anos, tinham sido torturados, e os ferimentos indicavam que eles tinham sido sacrificados em rituais de magia negra. Rapidamente as suspeitas recaíram sobre os três adolescentes mais diferentes do lugar: Damien, Jessie e Jason eram conhecidos por usarem roupas pretas e ouvirem heavy metal. Só isso. Não levou muito tempo para que a cidade inteira tivesse “certeza” da culpa deles, e “Os três de West Memphis” chamaram atenção nacional: como podiam adolescentes, praticamente crianças, serem capazes de tanta crueldade com outras crianças?

Todas as emissoras do país foram à West Memphis cobrir a investigação e os julgamentos, e entre eles estavam Joe Berlinger and Bruce Sinofsky. A dupla já tinha feito o documentário Brother’s Keeper, também sobre um assassinato, e agora trabalhava em um projeto para a HBO. Só que eles não eram imprensa, eram cineastas, e logo foram arrastados para o meio da investigação quando uma evidência caiu, por sorte – ou azar –, na mão deles. Berlinger e Sinofsky lentamente se convenceram da inocência dos garotos, mas era tarde demais, eles já tinham sido condenados pelos moradores da cidade, e mais importante, pela mídia.

As continuações, Paradise Lost 2: Revelations e Paradise Lost 3: Purgatory, são íntimas e marcantes. Os diretores conseguem acesso a Damien na prisão, onde ele aguarda sua sentença de morte, e o espectador entra na mente de um adolescente forçado a se tornar adulto rápido demais. Berlinger e Sinofsky não se seguram: os filmes são um comentário aberto sobre sociedade, religião, preconceito, mídia e como essas coisas podem se juntar para fazer justiça com as próprias mãos – ou pelo menos para manipular os braços onde essas mãos estão presas.

Serial (2015)

2

A última entrada nessa lista é um pouco diferente, porque não tem uma versão em português, já que é um podcast. Mas se você está afiado no inglês, essa é uma boa pedida para os fãs do true crime. Sarah Koenig é jornalista e radialista. Ela não foi atrás da história que conta em Serial, a história veio até ela, mas foi Koenig que encontrou o meio perfeito para contá-la, um que colocaria os podcasts bem no centro das conversas sobre cultura e novas mídias, e seria reconhecido depois como uma obra prima de jornalismo, recebendo o Peabody Awards, uma das premiações mais importantes das organizações midiáticas.

Koenig se interessou pelo caso de Adnan Syed porque recebeu uma carta falando de um possível álibi que não tinha sido explorado pela defesa de Syed, lá em 1999, quando ele foi condenado pelo assassinato de sua namorada de escola, Hae Min Lee. A jornalista então começou a investigar a história, com um acesso incrível a todo tipo de evidência, notas dos detetives, testemunhas, amigos, família, e o próprio Syed, em mais de 30 horas de telefonemas para a prisão.

Como ela admite várias vezes, Koenig não tem certeza nem sobre a culpa e nem sobre a inocência de Syed. Ela não está em uma cruzada para tirá-lo da prisão, mas para “resolver” o caso, isso é, reconstituir os passos dele durante 21 minutos de uma tarde de janeiro de 1999, quando o assassinato teria ocorrido. Eram os 21 minutos mais importantes da vida de Adnan Syed e ele não tinha nenhuma memória deles. Com um senso de humor afiado e vontade de chegar ao fundo dessa história, Koenig cria uma narrativa atraente, que envolve o espectador em uma jornada pela verdade e o significado de amor e justiça.

O fascinante estilo de reportagem de Sarah Koenig e o fascinante drama de Adnan Syed fizeram tanto sucesso que mais duas temporadas de Serial foram idealizadas. A segunda é a história do soldado americano Bowe Bergdahl, que passou cinco anos como prisioneiro de guerra do Talibã, e quando voltou para casa foi acusado na corte militar de ser um desertor e de ter colaborado com o inimigo. Serial está no ar atualmente, com novos episódios sendo lançados a cada duas quintas feiras.

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Escrito por Ana Carolina Nicolau

Ana Carolina Nicolau

Encarou cinco anos de Cálculo pesado para descobrir que preferia as letras aos números. Apesar dos esforços para se concentrar nas telonas, foi capturada pela fascinante tevê do século XXI. Mantém uma relação chove-não-molha com a sétima arte no site take148.net. Atualmente estuda para encontrar a solução ótima da equação “cinema + tevê + vida social = 24h”. Tem quase certeza que esse deveria estar na lista dos 7 Problemas do Millennium.

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