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House of Cards é chato – e isso é ótimo

“Washington é Hollywood para gente feia”. Essa frase foi dita em UnREAL, um dos grandes hits do ano passado, que retorna em junho para sua segunda temporada. É a história de duas mulheres no comando de um reality show, e a série vai fundo na tarefa de mostrar como o conjunto final apresentado para o telespectador é fruto de pura manipulação, em uma rede de mentiras que só tende a se ampliar cada vez que um plano dá errado. Agora, substitua “duas mulheres” por “um casal”, “reality show” por “país”, e “telespectador” por “povo”. Essa é uma boa sinopse para House of Cards, um dos maiores sucessos da Netflix.

“Política não é mais só teatro. É show business”. Isso é algo que Frank Underwood diz no nono episódio dessa quinta temporada. Além da mágica presença da atriz Constance Zimmer nas duas séries, é assim que os dois mundos colidem: UnREAL e House of Cards são essencialmente a mesma coisa. São sobre gente abolindo limites – morais, éticos e humanos – em função de uma ilusão de poder que pouco a pouco desmorona.

Obviamente, a personagem de UnREAL, dona da frase lá do início desse texto, referia-se à beleza física. Enquanto House of Cards exibe uma cota generosa do “padrão de beleza imposto pela mídia”, eu tendo a concordar com Quinn quanto a um significado mais abrangente de beleza, ou de feiura.

E é aí que as duas séries se distanciam, porque UnREAL é divertida. Não é engraçada – tem uma diferença grande entre os dois conceitos – mas é divertida. Já House of Cards é indigesta, é pesada, é densa. Em resumo, além de descer como comida estragada, Washington é feia. Daí esse texto ser postado depois de duas semanas de a temporada ser disponibilizada na Netflix. Para mim, House of Cards não é um material bom, ou mesmo viável, para se maratonar, ainda que 3 milhões de pessoas discordem.

A maldade de Frank e Claire Underwood demanda tempo para ser absorvida, e mais tempo ainda para ser compreendida. Minha mãe tem sido minha companheira fiel desde a primeira temporada, e nossa reação não poderia ser mais diferente. Eu sempre quis que o casal real triunfasse, não porque eu concordo com as ações dele, claro, mas porque acredito que esse rumo dá uma história muito mais interessante.

Minha mãe não. Ela torceu para que Zoe Barnes publicasse a matéria, para que Heather Dunbar vencesse as eleições e para que Cathy Durant não se deixasse ser chantageada por Frank. Eu torci para que ele tirasse todas elas do caminho. Ele tem todo o poder do mundo, e fará qualquer coisa para mantê-lo, mas não parece saber muito o que fazer com ele. Essa história merece que meus princípios sejam dobrados.

Mas essa é uma relação difícil de se manter com uma série de tevê. Não é à toa que minha mãe insiste para vermos vários episódios de uma vez, ela não precisa comprometer sua visão de mundo cada vez que sentamos no sofá. Esse compromisso tampouco é uma ideia nova. The Sopranos, The Wire, Mad Men, Breaking Bad – todas consideradas parte da era de ouro da televisão, da #peaktv, do século em que a tevê passou o cinema – não só contavam com essa ideia, mas precisavam dela para sobreviver, com a certeza de que o telespectador afrouxaria suas convicções para torcer pelo cara mau.

As vezes isso pode ser divertido, geralmente quando o personagem se encontra acima da narrativa. The Sopranos não é sobre a máfia e Breaking Bad não é sobre drogas, as duas são sobre alguém que calhou de ter um “emprego” que o obriga a fazer coisas ruins e como isso o afeta fora dele. House of Cards é sobre política, é sobre o emprego, e sobre quem o tem. A série não se permite desenvolver o que os personagens são para além do que eles fazem. Essas pessoas são tão maquiavélicas que o roteiro aboliu qualquer possibilidade delas demonstrarem sentimentos que não estão relacionados ao poder. Sabemos que não vale a pena investir emocionalmente na relação entre Claire e Tom ou entre Doug e Lauren – quem ele próprio transformou em viúva – porque já estivemos nessa situação antes e vimos como os personagens lidaram com ela: mataram a pau (perdão pelo trocadilho).

Até o casamento dos Underwood se tornou preto e branco. Costumava ser dúbio, as vezes sazonal, mas não mais. Frank continua com Claire porque tem medo do que ela pode ser sem ele, e é uma jogada tanto quanto todas as outras. Desde a primeira temporada, vimos eles desistirem dos cigarros secretos, das corridas noturnas e dos presentes saudáveis. De tudo que os tornavam um casal, fora do jogo. Pode parecer que eles foram à guerra e voltaram mais fortes, mas a última cena da temporada sugere que na verdade eles estão mais frágeis, porque finalmente Claire pode ser protagonista de uma história só dela, e depois nos contar tudo sobre isso. Esse tipo de desenvolvimento de personagem que só acontece em uma esfera tende a ser lento, e enquanto tudo mais em House of Cards gira na velocidade da luz, nós nunca chegamos a conhecer de fato os personagens principais, mas torcemos por eles como se os conhecêssemos.

A era de ouro da tevê é também a era dos anti-heróis, e passamos tanto tempo gostando de “gente feia” que quando um cara genuinamente bom aparece, como Lou Solverson, de Fargo, ele parece chato e tedioso para boa parte do público. E estamos falando de um dos maiores – e únicos – heróis dos últimos 20 anos de televisão. Herói na concepção clássica, aquele que os gregos definem como intermediário entre deuses e homens (no caso, extraterrestres e homens). Esse é um cara chato.

The Sopranos, The Wire, Mad Man, Breaking Bad e agora UnREAL têm em comum o fato de serem extremamente divertidas, em parte porque vemos seus personagens se divertirem. E é por isso que quase não paramos para pensar que elas exigem que façamos uma bolinha de papel de nossa consciência e que ela vá direto para a lixeira. Alguns podem dizer “é só uma série de tevê”. Mas algo nunca é “só” alguma coisa quando sua mensagem é espalhada pelos cinco cantos do planeta.

Por não ser divertida, House of Cards talvez não seja uma excelente série, mas pode ser mais importante para mim como crítica e espectadora do que eu inicialmente julguei, porque me faz questionar porque eu quero que um assassino corrupto tenha todos seus desejos atendidos. House of Cards me faz questionar se podemos colocar um interruptor nos nossos princípios, e se não está na hora de trazer os heróis às telas outra vez. Mad Men não faz isso. Talvez, quem sabe, House of Cards pode até ser uma dessas séries que vai me tornar uma pessoa melhor. Eu só não a colocaria em uma lista de top 10.

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Escrito por Ana Carolina Nicolau

Ana Carolina Nicolau

Encarou cinco anos de Cálculo pesado para descobrir que preferia as letras aos números. Apesar dos esforços para se concentrar nas telonas, foi capturada pela fascinante tevê do século XXI. Mantém uma relação chove-não-molha com a sétima arte no site take148.net. Atualmente estuda para encontrar a solução ótima da equação “cinema + tevê + vida social = 24h”. Tem quase certeza que esse deveria estar na lista dos 7 Problemas do Millennium.

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