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Estamos obcecados com The Path, uma série sobre os perigos da obsessão

 

Primeira lição sobre cultos: os seguidores não os chamam assim. É uma maneira simplista de identificá-los, mas funciona. No caso do Meyerismo, é um “movimento”. Uma busca mundana pela “luz”, que pode ser atingida subindo uma “escada”. Metafórica, claro. Se você nunca ouviu falar desse nome, é porque se trata de uma invenção de The Path, a nova série original do serviço de streaming Hulu.

Estrelada por Aaron Paul (Breaking Bad), Michelle Monaghan (True Detective) e Hugh Dancy (Hannibal), The Path conta a história de uma família adepta do Meyerismo que subitamente é confrontada com dúvidas sobre os ensinamentos da doutrina. Segunda lição sobre cultos: não há espaço para dúvidas. E é aí que uma série sobre religião se torna também um suspense policial, com a tensão variando entre conflitos familiares até questões éticas e legais.

Os dois primeiros episódios da série são bem superficiais sobre as definições do Meyerismo. Eddie Cleary (Aaron Paul) e Sarah (Michelle Monaghan) se parecem com qualquer outra família que mantém laços fortes com uma comunidade religiosa. Eles rezam à mesa do jantar, ajudam vítimas de um tornado e criam seus dois filhos para fazerem o bem e serem solidários. Mas quando descobrimos que a vida profissional dos Cleary está intimamente ligada à tarefa de conseguir mais praticantes para o grupo, as coisas começam a tomar forma e ficarem cada vez mais assustadoras. Não está claro o que exatamente Eddie começa a questionar, senão o sentimento de que há algo de errado com o olho imenso pendurado na parede – ou com o que ele inspira nos mais devotos.

Enquanto ele busca respostas racionais para os mistérios do Meyerismo, Cal (Hugh Dancy) se encarrega da missão do fundador, agora afastado, de fazer do culto movimento uma coisa popular com as massas, atraindo não dinheiro, mas embaixadores da fé, pessoas que possam testemunhar o quão especial é fazer parte daquela comunidade – algo que Eddie não consegue mais fazer sozinho. Essa oposição entre eles instala o arco principal da série, mas também o triângulo amoroso com Sarah, que precisa decidir até que ponto a religião é indispensável para guiar suas escolhas emocionais e sexuais.

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A representação da religião é tão sinistra quanto envolvente. A escada é metafórica, mas seus degraus são reais, com distinções sendo conquistadas através de seminários e retiros espirituais. Existem aparelhos elétricos para medir seu nível de “clareza”, e os líderes estão lá para ajudá-lo com qualquer problema, desde que você aceite passar duas semanas preso em um quarto sem janelas. Parece inocente até que não seja mais. Apesar de Jessica Goldberg, a criadora, insistir que o Meyerismo não foi criado a partir de nenhuma religião real, suas similaridades com a Cientologia garantem força o suficiente para que tanto os religiosos como os ateus fiquem fascinados pela forma como The Path constrói suas críticas e observações.

Se há pouco espaço na tevê para séries assim é porque é uma missão árdua fazer com que essas duas audiências coexistam em função de um universo que reconhece a existência não de um deus, mas das crenças em si. Nesse aspecto, The Path está em boa companhia: a série é produzida por Jason Katims, de Friday Night Lights e Parenthood, nas quais a religiosidade sempre teve papel importante na vida de seus personagens.

Esteticamente, a série reforça as escolhas temáticas usando o contraste para criar sua identidade visual. Da iluminação ao figurino, tudo se junta para explicitar as diferenças entre os dois caminhos, e onde eles podem convergir. Com diálogos enérgicos e momentos de silêncio tão expressivos quanto, The Path não joga o espectador direto na insensatez. A série gasta tempo te convencendo de que as coisas não são tão excêntricas, de que tudo é parte de um progresso normal, de forma que quando vem o twist que muda tudo, você já está completamente entretido. Terceira lição sobre cultos: é assim que fazem com que as pessoas queiram voltar toda semana. Para um novo episódio, claro.

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Escrito por Ana Carolina Nicolau

Ana Carolina Nicolau

Encarou cinco anos de Cálculo pesado para descobrir que preferia as letras aos números. Apesar dos esforços para se concentrar nas telonas, foi capturada pela fascinante tevê do século XXI. Mantém uma relação chove-não-molha com a sétima arte no site take148.net. Atualmente estuda para encontrar a solução ótima da equação “cinema + tevê + vida social = 24h”. Tem quase certeza que esse deveria estar na lista dos 7 Problemas do Millennium.

98 posts
  • Leanderson Tulio

    Série excepcional! Atuações excelentes!!!

  • Ronarigudo

    Série excelente!