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Em seu aniversário de 5 anos, uma defesa apaixonada do episódio musical de Grey’s Anatomy

 

Impossível negar que Grey’s Anatomy sempre manteve uma relação especial com a música. Desde sua primeira exibição, em 2005, todos os episódios foram nomeados com títulos de canções, e muitas das faixas que apareceram na trilha sonora do seriado acabaram entrando nas listas das mais ouvidas, trazendo de volta cantores esquecidos e abrindo portas para bandas até então desconhecidas.

Não foi à toa que o episódio musical da sétima temporada foi tão aguardado. A trama era cruel: Callie e Arizona se envolviam em um acidente de carro que colocou Callie em coma e o bebê que ela esperava em risco. Era um tema pesado, e a questão era como um drama médico poderia sustentar um episódio musical, geralmente reservado às comédias, sem estragar tudo.

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Tinha sido feito antes. Quase. Três semanas antes da exibição de Song Beneath the Song, outra série médica tinha se arriscado colocando seus principais astros nos vocais. Quando House foi ao ar naquela noite, exibiu uma de suas sequências mais memoráveis, na qual o médico e a Dra. Cuddy cantavam Get Happy em um cenário burlesco, um sonho que Cuddy teve enquanto estava sedada para uma cirurgia. Glee também fazia um sucesso escandaloso, e parecia um momento melhor do que nunca para Shonda Rhimes tirar a ideia do musical do papel e o transformar no evento da noite.

Surpreendentemente, não foi. Pelo contrário, Grey’s Anatomy: The Musical Event, como ficou conhecido, figurou em algumas das listas dos piores de 2011. A crítica apontou a dificuldade de balancear o enredo angustiante e o script musicalizado, apesar das vozes poderosas e performances marcantes.

Agora, cinco anos depois, completados em 31 de março, o episódio musical parece fazer mais sentido do que fez lá em 2011. Claro, quase todas as séries serializadas têm a mesma premissa. Todo episódio pega emprestado do passado e ao mesmo tempo aponta para o futuro. A coesão entre os capítulos, semana após semana e ano após ano, pode ser a diferença entre uma boa história e uma ótima história. Mas depois de doze temporadas, quando voltamos em Song Beneath the Song, enxergamos além: o episódio honrou o passado da série e nos preparou para o futuro com a gentileza que só a música poderia oferecer.

Prevendo o futuro

Foi estranho e foi diferente, foi brega e foi sério, mas tudo isso fez com que o episódio fosse especial, ou pelo menos se tornasse especial com o passar dos anos, principalmente agora que a chance da façanha se repetir é praticamente nula. Naquele ponto, no entanto, algo já tinha se repetido várias vezes: a morte de um personagem importante. Grey’s Anatomy construiu um universo no qual seus próprios médicos se passam por pacientes muito mais vezes do que o aceitável na realidade. Essa mania, que também faz qualquer melodrama muito mais atraente, já tinha riscado George, Izzie, Percy e Reed da lista, além de muitos parentes e amigos da equipe médica.

Quando Song Beneath the Song abre com Chasing Cars, após o breve tema de abertura entoado por Sara Ramirez, havia uma possibilidade real de que Callie morresse. A música, da banda Snow Patrol, tinha sido usada anteriormente na cena da morte de Denny Duquette, uma das mais marcantes dos primeiros anos da série. Chasing Cars também seria usada em 2015, no fatídico How to Save a Life, quando Derek morre após se envolver no acidente do qual tentava salvar as vítimas. Callie foi a única a sobreviver a Chasing Cars, e enquanto em Song Beneath the Song a canção indicava que ela poderia morrer, How to Save a Life criou a expectativa inversa de que Derek pudesse sobreviver porque Callie pode. Duas vezes fomos provocados, duas vezes fomos enganados. É demais.

Trabalho em equipe

Quando emprestou o nome e foi usada na cena final do episódio da morte de Derek, How to Save a Life já era um clássico de Grey’s Anatomy. Ninguém conhecia a banda The Fray quando a música estreou em um episódio da segunda temporada, Superstition, como trilha para a cena na qual todos os médicos são vistos fazendo seus rituais de sorte. A personagem de Michaela Watkins morre na mesa de cirurgia, completando a sétima paciente pedida em sequência. Quando todas as mãos tinham que funcionar em conjunto novamente, a letra de How to Save a Life fica relevante ao explicitar o stress durante a cirurgia de Callie, quando Cristina usa um novo método que decidirá o futuro da ortopedista e do bebê. A música é a que funciona melhor dentro da narrativa do episódio musical, a equipe divide todas os versos, estabelecendo um marco que abriu espaço para que ela fosse usada novamente na despedida de Meredith e Derek.

Voltando para a realidade

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A música que Callie canta antes de acordar do coma não fez parte de nenhum episódio da cronologia principal de Grey’s Anatomy. Composta por Brandi Carlile, The Story tocou em um clipe especial, Every Moment Counts, uma recapitulação da terceira temporada apresentada por Jeffrey Dean Morgan, que interpretava Denny. O grande momento de Sara Ramirez em Song Beneath the Song é bem atuado, bem filmado, e lindamente cantado, e a progressão da música ilustra o momento em que Callie reencontra a força que precisava para acordar no amor por Arizona e pela recém-nascida Sophia. Como o momento mais poderoso do episódio musical, The Story é também uma das poucas músicas que não funcionaria em um episódio não cantado, então foi um ponto positivo que os produtores tivessem dispostos a apostar nela quando tanto das séries da tevê aberta é baseado em escolhas que não apresentam risco nenhum.

Um pesadelo com trilha sonora

A única coisa que realmente não dá para deixar passar em Song Beneath the Song é a montagem nas nuvens, ao som de Runnin’ on Sunshine. A música estaria em um bom lugar em qualquer outro episódio com um momento leve, mas parece um pouco deslocada ao começar como um sonho de Callie e desenvolver para as saudáveis (?) vidas sexuais dos casais citados por ela supostamente como ideais. Talvez a Callie do futuro ficasse um pouco decepcionada por descobrir que nenhum deles sobreviveu, incluindo a própria relação.

Ainda que do ponto de vista da narrativa o episódio tenha suas fraquezas, Song Beneath the Song continua a ser um dos meus favoritos. Sua mistura de situações bobas com cenas mais intensas resume a identidade de Grey’s Anatomy em geral. Podemos argumentar que para um episódio musical funcionar perfeitamente, a primeira coisa que se tem que garantir é uma playlist bem feita, talvez menos significativa e mais musicalmente alinhada, mas as escolhas das canções continuam a soar como consistentes, por mais piegas que sejam. Song Beneath the Song pode não ter sido tão grandioso como se esperava, mas certamente não foi irrelevante.

Veja a cena de How to Save a Life abaixo.

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Escrito por Ana Carolina Nicolau

Ana Carolina Nicolau

Encarou cinco anos de Cálculo pesado para descobrir que preferia as letras aos números. Apesar dos esforços para se concentrar nas telonas, foi capturada pela fascinante tevê do século XXI. Mantém uma relação chove-não-molha com a sétima arte no site take148.net. Atualmente estuda para encontrar a solução ótima da equação “cinema + tevê + vida social = 24h”. Tem quase certeza que esse deveria estar na lista dos 7 Problemas do Millennium.

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