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Death Note é ruim, mas também não é pra tanto

A nova produção da Netflix é inferior ao original, mas tem seus momentos de inspiração

Antes de mais nada, vamos tirar uma coisa do caminho: Death Note, o filme da Netflix lançado na plataforma no dia 25 de agosto e Death Note, série de mangás escrita por Tsugumi Ohba e ilustrada por Takeshi Obata, que depois ganhou uma adaptação em anime produzida pelo estúdio Madhouse, são dois bichos diferentes. Muito diferentes.

Death Note não foi concebido como uma adaptação fiel. Segundo o diretor do filme, Adam Wingard, em entrevista para a versão norte-americana do Gizmodo, a intenção, antes de criar uma representação fiel do material original, era a de contar uma espécie de história de origem, mostrando como Light, personagem principal de Death Note, transformou-se no personagem visto no mangá. “Tá, não era pra eu considerar que os dois são coisas diferentes, caramba?” Sim, a regra continua valendo. Mas Death Note, o filme, depende diretamente de Death Note, o mangá. O primeiro retira toda sua inspiração do segundo, mas opta por adaptações em nome da tentativa de “contar o início” da saga. E, para surpresa (ou decepção, chame do que quiser) de todos, essas adaptações acabaram por transformar o thriller criminal do original em uma espécie de cruzamento bizarro entre filmes clássicos de escola dos anos 80, como Clube dos Cinco, Curtindo a Vida Adoidado e Te Pego Lá Fora, e a saga Premonição.

O diretor Adam Wingard explicando ao elenco que filme é filme, anime é anime e mangá é mangá. Imagem: James Dittiger/Netflix

Light Turner (Nat Wolff), o protagonista de Death Note, é um cara sem muito trato social. Já no início do filme, Light assina seu Atestado de Estereótipo™ como o “nerdão da escola”, ao aparecer resolvendo umas equações pro pessoal mais burro da escola, pra ganhar uma graninha. Diferentemente do Light do mangá (que é Yagami, e não Turner), ele não faz o tipo popular e confiante. Os personagens que assinaram o Atestado de Estereótipo™ de “valentões da escola” gostam de usá-lo como saco de pancada. As “meninas populares que são líderes de torcida” (mais um oferecimento de Atestado de Estereótipo™) não lhe dão lá muita atenção. Resumindo: Light é um apanhadão de todas as características típicas dos protagonistas de filmes de escola dos anos 80.

Light Turner com cara de quem não pegou a piada. Acostume-se: isso é uma constante nesse filme. Imagem: Reprodução

Mas a rotina meio sem graça de ficar resolvendo equações alheias e assistindo treino das líderes de torcida muda quando Light encontra um caderno meio esquisito, abandonado no meio da grama. Esse caderno é o tal Death Note e ao abrí-lo, Light descobre que tem em mãos uma poderosa ferramenta: qualquer pessoa que tenha o nome gravado nas páginas do Death Note vai precisar encomendar um caixão. Só que o negócio é cheio de regras, por isso é preciso visualizar a face do alvo, do contrário a mandinga não funciona, um mecanismo criado para evitar um assassinato em massa de Josés da Silva, por exemplo. Junto com o caderno, Light ganha também a companhia de Ryuk (Willem Dafoe), um “simpático” deus da morte que gosta de comer maçã. Na verdade, o Death Note só chegou até as mãos de Light porque Ryuk, o dono original do caderno, acha muito divertido acompanhar o destino dos humanos presenteados com o dito-cujo. E como a diversão só acontece quando alguém escreve alguma coisa no caderno, Ryuk incentiva Light a usar o Death Note para salvar uma colega atacada pelos “valentões da escola” lá de cima. E é aí que o cruzamento com Premonição acontece.

Ryuk é um cara que transborda charme e simpatia. Imagem: Reprodução

Ao descobrir que o negócio realmente funciona, Light decide usar o poder que tem em mãos para punir criminosos e transformar o mundo num lugar menos desagradável. Claro que essa ideia genial sai do controle, não só graças à influência constante de Ryuk, mas também de Mia (Margaret Qualley), líder de torcida que também assinou o Atestado de Estereótipo™ de “garota malvada que fuma em situações onde ninguém deveria fumar”. Depois de contemplar os poderes do Death Note (Light resolve fazer uma demonstração particular, porque queria descolar uma gatinha), Mia passa a acompanhar nosso “herói” em sua cruzada para eliminar o mal do mundo. A dupla enche o Death Note com nomes de bandidos, terroristas e ditadores, sempre fazendo questão de reclamar a autoria dos feitos através do pseudônimo “Kira”, na tentativa de inibir a atividade criminosa mundial (porque os caras não pensam pequeno). Mas as atitudes de Kira chamam a atenção não só do pai de Light (Shea Whigham), um policial de Seattle, cidade onde a coisa toda acontece, mas também de L (Lakieth Stanfield), um sujeito meio esquisito, viciado em açúcar e que, por acaso, também é um investigador brilhante. Juntos, eles iniciam uma caçada à Kira, que leva a desentendimentos entre Light e Mia, um monte de gente morta e, lógico, um desses bailes de escola dos EUA. Com mais gente morta.

L mandando AQUELE ao vivo. Imagem: Reprodução

Provavelmente, de acordo com essa explicação, Death Note deve soar como uma verdadeira bagunça. E a verdade é que o filme é uma bagunça. Boa parte dos conceitos apresentados no material original aparecem de forma apressada no filme. Ainda que o diretor de Death Note argumente que trata-se de uma abordagem original da história, seria muito difícil condensar alguns volumes do mangá (são 12 no total) ou episódios do anime (são 37) em 1h41min de filme. Por isso, em alguns momentos a trama soa um pouco confusa. As limitações impostas pelo tempo também impedem um melhor desenvolvimento dos personagens, algo que fica claro no relacionamento de Light e L. A tensão constante provocada pelas tentativas de antever as ações do adversário, acompanhada de uma espécie de reconhecimento e admiração mútua, é um dos pontos centrais da trama do Death Note original. No filme, vemos essa relação representada em apenas uma cena.

L e Light batendo um papo meio constrangedor no café. Imagem: Reprodução

“Tá, mas se o filme é essa bagunça toda e muda as boas coisas do original pra pior, então porque raios ele não é tão ruim quanto tão dizendo por aí?”

Para responder essa pergunta, é preciso voltar ao início desse texto: Death Note, o filme, não é Death Note, o mangá/anime. Tudo que foi dito até aqui tinha a intenção de reforçar essa ideia, porque só é possível encontrar algo de bom na produção da Netflix quando esquecemos que ele deriva de um material já consagrado como uma das maiores produções de seu gênero na história. Não há como perceber as qualidades do filme sem, de certa forma, ignorar que existiu um Death Note antes de Death Note. Coisas como o fato do filme ser tecnicamente muito competente, acertando em cheio no visual. Ou a trilha sonora, que é meio ridícula, mas faz todo o sentido no clima “escola dos anos 80” do filme. A coisa vai de “Reckless”, do Australian Crawl, a “The Power Of Love”, do Air Supply, passando por “Take My Breath Away”, do Berlin, e “I Don’t Wanna Live Without Your Love”, do Chicago. É brega, é meloso, mas faz todo sentido.

Também é preciso destacar a atuação de alguns personagens. Se o trabalho de Nat Wolff deixa muito a desejar como Light (como nessa “maravilha” aqui), melhorando lá pelos momentos finais do filme, o mesmo não se pode dizer de Margaret Qualley, que apresenta uma performance consistente como a manipuladora Mia e, assim como no caso de Wolff, seu desempenho ganha ainda mais força no final da trama. Já Lakieth Stanfield foi uma surpresa e tanto, apresentando muitos dos maneirismos do L original, mas sem parecer uma cópia meio sem vergonha. Mas a interpretação mais impressionante é a de Willem Dafoe, como Ryuk. Dar personalidade a um bonecão de computação gráfica que passa a maior parte do filme nas sombras usando apenas a voz e o rosto (que teve por base a captura de movimento das expressões do ator) é uma tarefa para poucos. E Dafoe faz um grande trabalho. Ryuk é assustador e extremamente divertido ao mesmo tempo.

Death Note é uma bagunça, é meio ridículo, exagerado, mas pode ser uma ótima diversão, desde que as comparações com o original terminem antes do logo da Netflix aparecer na tela. É aquele tipo de filme que a gente senta pra assistir quando não quer se preocupar com tramas complexas ou dramas profundos. Dá sim pra dizer que é um filme meio bobo. Mas um filme meio bobo como aquelas comédias de escola dos anos 80. Ou Premonição.

Death Note, o filme, está disponível na Netflix e assim continuará.

Death Note, o anime, também faz parte do catálogo do serviço, mas sabe-se lá até quanto.

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Escrito por João Alves

João Alves

Radialista, jornalista e enrolista.

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