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Crítica – Perdido em Marte

Perdido em Marte está longe de ser o maior e melhor filme de ficção científica de todos os tempos, mas não tenho dúvidas de que ele é justamente o filme de que precisávamos. Num tempo onde distopias se tornaram a grande tendência e a esperança parece ter abandonado o gênero por completo, ver um filme onde a ciência é representada sem obscurantismos e livre da fatídica tarefa de dominar e escravizar a humanidade é mais do que gratificante.

O filme trata-se da adaptação para os cinemas do livro The Martian, do autor norte americano Andy Weir. Não fosse suficiente a expectativa criada pelos trailers e pela qualidade da obra literária homônima, a declaração da NASA quanto à descoberta de água líquida na superfície de Marte voltou os olhos do mundo para o planeta vermelho e, consequentemente, para o novo filme de Ridley Scott. Para além das especulações a respeito do momento mais do que oportuno para a divulgação de uma das maiores descobertas da história da exploração espacial, Perdido em Marte tinha uma grande responsabilidade: fazer jus às esperanças depositadas sobre ele.

No fim das contas, a proposta acaba se assemelhando à de filmes como O Náufrago (2000), um homem abandonado à própria sorte que utiliza seus conhecimentos para sobreviver ao ambiente hostil à sua volta.

Perdido em Marte trás uma proposta semelhante, embora menos dramática, de O Náufrago
Perdido em Marte traz uma proposta semelhante, embora menos dramática, que a de O Náufrago

É com muito prazer que reconheço que Ridley Scott fez o dever de casa, atingindo a tão sonhada redenção após o desastroso Prometheus (2012). Seguindo uma proposta diferente daquela que o consagrou como um grande diretor de ficção científica em Blade Runner (1982) e Alien (1979), ele abriu mão da estética “sombria” e chuvosa em prol de cenas bem iluminadas. De forma semelhante, os corredores claustrofóbicos e fumacentos da Nostromo foram substituídos pelas paredes brancas e lustrosas da Hermes.

Blade Runner, uma obra de arte noir futurista
Blade Runner, uma obra de arte noir futurista
Os claustrofóbicos e fumacentos corredores da Nostromo
Os claustrofóbicos e fumacentos corredores da Nostromo
Hermes é a nave que leva os tripulantes da Terra à Marte
Hermes é a nave que leva os tripulantes da Terra à Marte

O tratamento dado à ciência também merece atenção especial, uma vez que aos olhos de um leigo, é praticamente impossível distingui-la da ficção. Os foguetes, os termos técnicos, a plantação de batatas em solo marciano utilizando fezes dos tripulantes, a gravidade artificial. Tudo nos é apresentado de forma completamente crível. Até mesmo a proposta de lançar um foguete utilizando lona ao invés de janelas parece perfeitamente razoável.

Plantação de batatas em solo marciano
Plantação de batatas em solo marciano

Existe um detalhe neste filme, entretanto, que chega a parecer uma revisão de um antigo conceito apresentado em outro filme de Ridley Scott. Em Blade Runner somos apresentados a um mundo onde o desenvolvimento tecnológico destruiu a natureza e transformou cidades em grandes aglomerados insalubres de arranha-céus e seres humanos. Mas, mais do que isso, trata-se de um mundo livre de barreiras étnicas e culturais. Apesar da história se passar em Los Angeles no longínquo ano de 2019, pouco pode se notar do estilo de vida norte americano. A miscigenação é levada ao seu extremo e podemos contemplar ruas lotadas de asiáticos, americanos, monges e punks.

As ruas multi étnicas de Los Angeles
As ruas multi étnicas de Los Angeles em 2019 (Blade Runner)

Tudo isso, é claro, sublinhado por uma visão puramente pessimista e insalubre de um futuro onde a tecnologia se volta contra os seres humanos, dentre outras formas, através dos replicantes, seres artificiais criados por nós para servir como escravos em colônias espaciais. Em Perdido em Marte vemos o oposto, a tecnologia sendo utilizada como ferramenta de unificação e solidariedade entre os povos. Unidos em torno de um objetivo em comum, Chineses e Americanos unem suas forças e saberes técnicos em prol de um objetivo maior.

Chega a ser irônico que de todos os aparatos tecnológicos apresentados, a ideia de um mundo unido para além de nossas obsessões mesquinhas e egoístas seja a mais inacreditável de todas as façanhas propostas da trama.

Outro ponto que chama a atenção é a capacidade do roteiro de explicar determinados conceitos para o público sem cair em didatismo enfadonho. Desde os vídeos gravados por Mark Watney (Matt Damon) até as conversas dos membros da NASA, todas as explicações se encaixam na trama de forma elegante. Sem sombra de dúvidas, um belo trabalho.

Há quem reclame da ausência de um vilão, ou de um grande Mal para movimentar a trama e dar motivação aos personagens. Devo dizer que discordo. O maior adversário, neste caso, é o próprio planeta, os desafios são as condições desfavoráveis, a escassez de alimentos e as limitações tecnológicas. E o melhor de tudo, a arma utilizada para derrotar o “inimigo” (neste caso a própria morte) é a ciência. Tomemos como exemplo o momento em que Mark Watney diz: “I’m going to science the shit out of this.” Nesta frase a ciência é um verbo, é ação (!), muito diferente da ideia equivocada de que se trata de algo monótono para perdedores e nerds.

Espero do fundo do meu coração que filmes assim se multipliquem e que sejam assistidos por jovens e adolescentes ao redor do mundo. Não nos esqueçamos de que boa parte dos astrônomos, astronautas e cientistas de hoje se apaixonaram pelo que fazem assistindo à Jornada nas Estrelas e lendo às obras de Isaac Asimov.

Já estava mais do que na hora de a ciência deixar de ser a vilã, responsável por mergulhar a humanidade em trevas e ditaduras sem fim, e assumir o papel de guia rumo à paz e a um futuro melhor.

Nada melhor do que um ótimo filme como Perdido em Marte (muitíssimo bem humorado, diga-se de passagem) para nos trazer essa sensação.

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Ficha Técnica

Título: The Martian (Original);

Ano de produção: 2015;

Estreia: 01/10/2015 (Brasil);

Duração: 141 minutos;

Classificação: Não recomendado para menores de 12 anos;

Gênero: Ação, Aventura, Ficção Científica;

País de origem: Estados Unidos

Trailer:

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Escrito por Felipe Augusto

Felipe Augusto

Estudante de Arquitetura e Urbanismo apaixonado por filmes, jogos e séries. Meu ponto fraco é o meu amor por dinossauros. Não importa o quão ruim um filme seja, se tiver dinossauros eu vou assistir e provavelmente gostar.

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