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Crítica – 007 contra Spectre

O melhor James Bond de todos os tempos chega ao fim.

Não, não falo apenas da atuação individual de Daniel Craig (apesar de achar que ele não é tão ruim quanto seus críticos pintam) já que, assim como Sean Connery, Roger Moore, Pierce Brosnan e Timothy Dalton, Craig entrega apenas aquilo que um filme de ação Hollywoodiano exige: um rostinho bonito, uma atuação básica e umas frases de efeito ditas de modo a parecer o “macho alfa” de toda situação. Mais importante que o ator é as mudanças que vimos nessa atual roupagem do próprio James Bond – mudanças que, espero, não sejam deixadas de lado agora que um novo rosto deve ser encontrado para o papel. E Spectre dá o ponto final necessário à história desse novo agente que, apesar de atender pelo mesmo codinome de três dígitos, é muito diferente daquele que se tornou a quintessência do “espião” no imaginário coletivo.

Primeiro, é importante frisar: pela primeira vez estamos vendo uma história realmente sendo contada. Durante boa parte de seus mais de 50 anos, o principal ponto focal da franquia era o próprio personagem, um agente classudo, “comedor”, que matava exércitos inimigos com uma mão enquanto a outra alternava entre um gole e outro de vodka-martini e a coxa de uma mocinha indefesa. Mas, assim como os tempos mudaram, James Bond também precisava mudar – principalmente depois do fiasco do que foi Um Novo Dia Para Morrer, último filme de Brosnan e, também, o último que seguiu essa linha “clássica” do espião mulherengo cheio de bugigangas que, se vestisse uma máscara e capa, poderia muito bem ser o Batman com sotaque britânico. Até então, a história era só um pretexto para mostrar perseguições, tiroteios e alguns peitinhos, e um filme não necessariamente precisava levar em conta aquilo que o anterior fez. Essa premissa foi quebrada com Cassino Royale que, pela primeira vez, deu indícios de que pode, sim, haver uma história maior por detrás de tudo. De que, sim, um filme de James Bond pode ser aquilo que nunca antes foi: um filme sobre espionagem, e não sobre um agente secreto. E, essa história iniciada em Cassino Royale finalmente chega ao fim em Spectre, juntando tudo o que nos foi mostrado no arco de quatro histórias em que Daniel Craig viveu o agente James Bond, mostrando que, mesmo que não gostemos, aquilo tudo tinha sentido. Sentido porque os filmes não eram sobre um agente mostrando para nós, meros espectadores, como o homem pode ser foda e ter tudo o que sempre quis (lindas mulheres, carrões e uma vida cheia de adrenalina) mas sim um personagem numa cruzada contra um inimigo poderoso e misterioso. E a diferença desse novo arco está justamente nisso: James Bond, o agente, não é o ponto central da trama. Claro, ele é peça importante, mas, se o trocassemos por qualquer outro agente do cinema – como o Ethan Hunt de Missão Impossível, Jason Bourne ou mesmo um Triplo XXX da vida – tudo continuaria fazendo sentido, ao contrário do que vemos nos filmes “clássicos”, que simplesmente não funcionariam com nenhum outro personagem.

Assim, uma coisa é certa: aquele James Bond que você conheceu quando garotinho está morto – e, provavelmente, nunca mais irá existir. E isso é ótimo. E, com isso em mente, fica mais fácil entender o porque Spectre está sendo tão detonado por fãs e pela crítica.

Sim, Spectre não é o melhor filme de Craig como o agente 007. Mas, mesmo assim, fica anos luz à frente de algumas porcarias do passado cujo único objetivo era trazer bilheteria com cenas de ação sem praticamente nenhum fundamento por detrás, como Moonraker e Um Novo Dia Para Morrer – que podem até ser bons filmes de ação, mas que não sobrevivem sem ela. Aqui temos aquele tipo de história já clássica de Bond, onde um vilão megalomaníaco de uma sociedade secreta tenta dominar o mundo. E, assim como já se tornou a marca desse novo Bond, ele deve confiar muito mais em sua intuição e habilidades próprias do que nos gadgets que sempre marcaram o agente. Sem relógios a laser, carros que são verdadeiros tanques de guerra e canetas que na verdade são bombas atômicas, novamente somos lembrados a todo momento que as coisas estão mudando para nosso querido 007 – e Sam Mendes, diretor do filme, brinca a todo instante com essa premissa de mudanças.

Mas, apesar de ter uma história, isso não quer dizer que ela seja boa. Mesmo usando os três filmes anteriores como base, Spectre parece meio apressado, aquele tipo de história que demora pra engrenar e, de repente, tudo é solucionado numa tacada só. Apesar disso, Christoph Waltz consegue nos trazer um Blofeld muito mais convincente (no sentido de ameaça real, não de cientista louco) do que os atores que deram vida ao personagem nas décadas de 1960/70/80, que pareciam muito mais cientistas loucos do que uma ameaça real. Aliás, o próprio envolvimento de Blofeld aqui ganha contornos mais atuais, transformando o personagem no líder de uma enorme organização de vigilância mundial, sabendo tudo o que acontece, com qualquer um, em qualquer lugar do mundo – o que encaixa muito bem num mundo pós-Snowden e todo o escândalo da NSA, fazendo com que esse tipo de ameaça pareça bem real. E, assim como Cassino Royale foi uma espécie de “história de origem” de Bond, Spectre serve também como uma “história de origem” de Blofeld – vilão que, espero, continue a ser utilizado em filmes posteriores. Spectre também trabalha bem com a ideia de “último filme” de Daniel Craig, dando a entender que, seja quem for que assuma o manto do agente (e eu estou no time Idris Elba nessa história), será um “novo” 007, no sentido de que o antigo deixou “vago” esses três digítos do programa de inteligência britânico. E, talvez, quem sabe, nem se chame James Bond – o que seria uma nova quebra de paradigma pra franquia, que assumiria de vez que deixou de ser uma franquia sobre um personagem específico para se tornar uma franquia sobre espionagem.

Entre todos os problemas causados pelo hype antes do lançamento, acredito que o maior foi aquela dualidade criada pelo cast de Léa Seydoux e Monica Bellucci, deixando no ar a dúvida de quem seria a bondgirl e se, pela primeira vez, nosso agente teria uma companheira da mesma faixa de idade dele – quebrando aquele paradigma hollywoodiano de que personagens masculinos de meia idade só se interessam por garotas com idade para ser suas filhas. Logicamente, isso acaba não acontecendo. E, se a presença de Bellucci serviu para algo aqui, foi para reforçar esse estereótipo.

Apesar de ter alguns problemas como filme, Spectre marca um final digno para o melhor James Bond que já existiu (naquele sentido que já expliquei no começo do texto). Agora, se você é um fã daquele agente clássico dos anos 60 e acha que as mudanças foram uma afronta ao personagem, sinto lhe informar, mas você vai ter cada vez mais problemas em viver num mundo que, apesar de ainda machista, misógino e preconceituoso, tem se esforçado para mudar, mesmo contra a vontade de muitos puristas. E está mudando.

Assim como James Bond.

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Escrito por Rafa Noia

Rafa Noia

Estudante de jornalismo da Unesp Bauru. Como cresceu sendo um gordinho nerd que sofre bullying, é viciado em qualquer coisa que possua dragões, naves ou super-heróis, e não tenta nem um pouco fugir do clichê do gordo nerd. Passa muito tempo jogando joguinhos e mais ainda assistindo séries, apesar do desejo oculto de querer usar todo esse tempo para dormir.

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