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Crazy Ex-Girlfriend, Jane the Virgin, e como o teste de Bechdel não funciona sozinho

 

O teste de Bechdel não é algo extremamente complicado. São três perguntas muito simples.

(x) A narrativa tem pelo menos duas mulheres?

(x) Elas conversam uma com a outra?

(x) Sobre alguma coisa que não homens?

É simples, e apesar de Alison Bechdel tê-lo criado como uma piada em uma história em quadrinhos de 1985, ele vem sendo usado há anos no cinema, na literatura e na cultura pop em geral para comprovar preconceito de gênero. Mas quando olhamos para a lista de obras que não passam no teste, ela inclui grandes títulos, obras importantes, interessantes e até clássicos revolucionários. O que isso nos diz sobre a forma como contamos histórias e sobre o mundo no qual essas histórias acontecem? E se por esses resultados mudarmos a forma de contá-las, será que o mundo mudará também?

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Na segunda à noite, a CW exibiu em seguida episódios de Crazy Ex-Girlfriend e Jane the Virgin e, e os dois tinham algo a dizer sobre o teste de Bechdel. Agora vamos esquecer essas regras por um minuto. Há 15 anos, não havia espaço na tevê para séries como essas. Ambas têm protagonistas mulheres, coadjuvantes mulheres e todas essas mulheres são construídas como personagens tridimensionais que se preocupam com família, carreira, amigos e sim, homens, porque a vida amorosa também é uma parte importante da vida delas. Então, quando episódios dessas séries não passam no teste, isso sugere algo mais significativo do que quando eles passam? Por exemplo, American Pie 2 não é o melhor advogado da causa feminista, enquanto Lola, de Corra, Lola, Corra, é frequentemente descrita como uma das melhores personagens femininas do cinema contemporâneo. Adivinhe qual dos dois filmes consegue marcar todos os pontos.

Em Jane the Virgin, a nova orientadora de Jane na faculdade diz que só aceita trabalhos que passem o teste, e Jane não consegue afirmar prontamente que o rascunho de seu romance obedece às regras, o que leva o narrador a questionar se a própria série o faz. Depois de várias tentativas falhas, ele finalmente consegue comemorar que Chapter Thirty-Seven preenche os requisitos quando Jane vai a um clube do livro só de mulheres. Mas esse é o tipo de cena que está lá justamente para fazer com que a obra passe: é só uma tecnicalidade.

Mas e daí? Isso quer dizer que Jane the Virgin não é uma série feminista, ou que Jane não é feminista? Verdade, a primeira temporada foi basicamente sobre Jane estar confusa sobre seu par perfeito, e isso rendeu muitas conversas sobre Michael e Rafael. Mas olhando para a premissa da série, Jane é alguém que não desistiu do sonho de ser escritora ou mesmo do trabalho como garçonete, que ela precisa para pagar a faculdade, apesar de ter sido inseminada artificialmente sem querer por uma médica louca (aliás, Luisa é a única personagem que constantemente passa o teste de Bechdel, e não por não falar sobre sua vida amorosa, mas por ser gay).

Nessa segunda temporada, todas as personagens femininas de Jane the Virgin tem tramas que não dependem de parceiros, mas isso não é o suficiente. Enquanto Jane luta para balancear a escrita de seu romance com as descobertas de ser mãe, todas suas conversas com ou sobre o bebê Mateo falham no teste. Xiomara terminou com Rogelio porque não quer ter mais filhos e para focar na carreira, mas toda vez que ela menciona sua decisão ou dá conselhos para Jane sobre Mateo, falha no teste. Alba está finalmente lidando com suas superstições religiosas e com seus desejos sexuais, mas nope, não passa. Petra está tendo dificuldade em se relacionar com as gêmeas Elza e Anna, mas como a maioria das discussões que ela tem sobre isso é com Rafael, peeeeen!, falhou.

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Apesar de Jane the Virgin ser principalmente sobre Jane e suas decisões como mulher independente, trabalhadora e mãe de primeira viagem, a realidade de que os homens também são parte de sua vida quase invalida o fato de que essa é uma série sobre mulheres, feita por mulheres. Embora a orientadora de Jane diga que o teste de Bechdel é apenas um “ponto de referência” – porque nada garante que obras que passam não sejam sexistas –, o fato de que o inverso também acontece mostra a fragilidade de uma análise que se baseia só em pontos de referência.

Já o caso de Crazy Ex-Girlfriend evidencia como a ironia pode ser um grande impedimento para o teste. Além do polêmico título (“This is the sexiest term”, Rebecca canta), que os nomes de todos os episódios estejam relacionados a Josh (“The situation is a lot more nuanced than that”) não ajuda o caso de como essa série vem consistentemente sendo uma das melhores comédias sobre uma mulher na história recente da televisão.

Sim, Rebecca atravessou o país para ir atrás de Josh, mas seus sentimentos por ele são a ponte que a leva a descobrir seus sentimentos sobre si mesma. Quando ela começou uma ação contra a companhia de água só para que Josh voltasse a tomar banho quente, o caso tomou proporções gigantescas que revelaram não só a competência de Rebecca para causas sociais, mas seu amor por elas e pela advocacia. Quando Rebecca vai para um acampamento de verão para reviver sua adolescência com Josh, ela descobre o poder do amor próprio e o valor do trabalho em equipe. Quando Rebecca contrata um ônibus para levar Josh e os amigos à praia, aprende que não vale a pena fingir ser outra pessoa apenas para fazer amigos.

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Em Josh Has No Idea Where I Am!, Rebecca está em um voo de cinco horas sentada ao lado de sua terapeuta, Dra. Akopian, que invade seus sonhos como uma fantasma. Enquanto elas resgatam acontecimentos do passado, as lembranças de Rebecca estão todas centralizadas em relações fracassadas com homens. A Dra. Akopian nota: “Você sabe o quão difícil é passar no teste de Bechdel sendo uma fantasma dos sonhos?”, e então ela pede que Rebecca esqueça os homens, e veja através deles.

O episódio passa no teste por poucas cenas (a melhor delas quando a Dra. Akopian fala de Broad City), mas Rebecca consegue tirar algo positivo de cada elo quebrado. Quando seu pai a abandona, ela descobre o carinho da mãe. Quando o carinha da faculdade dá um pé na bunda dela, ela se lembra do amor pelo teatro e pela música. Enquanto ressente o fato de que Josh não está apaixonado por ela, percebe que tem amizades valiosas (inclusive a dele) em West Covina.

Rebecca é alguém que acredita firmemente que Josh é o amor da sua vida, e sonha em ter com ele o relacionamento das comédias românticas (que quase nunca passam o teste de Bechdel), mas enquanto luta por isso, começa um processo de autoconhecimento e autocrítica que é longo, difícil e, para dizer a verdade, muito honesto.

Claro que essa não é a primeira vez que essa história é contada. Quase duas décadas antes, Ally McBeal e Felicity já haviam pulado impulsivamente em um avião para ir atrás de seus amores. O que mudou com Jane e Rebecca é que as séries agora têm espaço para brincar com esses conceitos, usando elementos externos (apresentações musicais e o narrador) para criticar, tirar sarro e até julgar seus próprios personagens.

Embora Crazy Ex-Girlfriend e Jane the Virgin mostrem que o teste de Bechdel é problemático quando usado individualmente como um apontador de viés de gênero, o experimento ainda é a melhor tentativa de se extrair tendências de um volume grande de dados. Por exemplo, dos 78 filmes indicados ao Oscar de melhor filme nos últimos 10 anos, só 38 passam no teste (spoiler: 78 têm pelo menos dois homens falando sobre outra coisa que não mulheres). Enquanto nós não sabemos se esses filmes, ou mesmo os que não passaram, são sexistas ou não apenas de olhar para o resultado, o número sugere uma falta geral de interesse (dos produtores mais do que do público) em histórias que apresentam personagens femininas fortes. E, como Jane e Rebecca mostram, essa não é uma perda só para as mulheres, mas para qualquer um que goste de boas histórias.

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Escrito por Ana Carolina Nicolau

Ana Carolina Nicolau

Encarou cinco anos de Cálculo pesado para descobrir que preferia as letras aos números. Apesar dos esforços para se concentrar nas telonas, foi capturada pela fascinante tevê do século XXI. Mantém uma relação chove-não-molha com a sétima arte no site take148.net. Atualmente estuda para encontrar a solução ótima da equação "cinema + tevê + vida social = 24h". Tem quase certeza que esse deveria estar na lista dos 7 Problemas do Millennium.

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