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A Garota Dinamarquesa

“A flor que desabrocha na adversidade é a mais rara e bela de todas”

As aspas são para quem não entende a referência: o título é a fala do imperador em Mulan, da Disney. Depois de ler o texto vocês vão compreender com certeza por que usei a frase do mais sábio e fofo imperador de todos os filmes do estúdio de animação.

A Garota Dinamarquesa (2016) narra a história de Lili Elbe, a primeira mulher transexual do mundo a fazer a4-transgender-actresses-who-could-have-been-cast-in-the-danish-girl-3b5809b3-f54e-4598-b963-b7d33420c1bd-jpeg-280889 cirurgia para mudança de sexo. Não é um filme exatamente pioneiro sobre o assunto, já vimos outras produções que focam na transexualidade, na travestilidade e também nas drag queens, mas A Garota Dinamarquesa é com certeza o primeiro filme produzido que terá alcance mundial (e que problematiza o assunto muito bem). As pessoas vão assistir. Mesmo que batida, a expressão “precisamos falar sobre” novamente vem à tona: precisamos falar sobre transfobia.

É importantíssimo esse tipo de produção aparecer nas telas do cinema porque a arte está desenvolvendo o papel lúdico de ensinar muita gente sobre o que significa nascer com um corpo já estabelecido como de um gênero, mas se identificar com outro. Não é uma questão de opção, de querer ser outra pessoa, não se trata de nenhum problema físico, é pura e simplesmente uma alma presa num corpo com o qual não se identifica.

finalizar_1444955752_posts__a_garota_dinamarquesa_jpgO mais interessante do longa é que fica muito bem separado o que significa identidade de gênero e orientação sexual. Lili enquanto ainda é Einar tem uma relação feliz e muito bem resolvida com sua esposa. Os dois têm uma vida sexual ativa e animada; são dois pintores que se amam de verdade. E talvez por causa desse amor que Gerda – a esposa – apoia o florescer de Lili e abre mão de Einar, para que a primeira seja feliz. Uma verdadeira lição do que significa o amor puro e simples: desejar a felicidade do outro, sendo ao seu lado ou não.

Tanto diferencia muito bem orientação e identidade que, depois de passar pela transição, Lili não interessa mais a um rapaz que queria ter um tererê com Einar. Em uma das falas para Gerda, Lili diz: “Ele é homossexual. Nós não temos nada um com o outro porque ele não tem interesse por mim”.

A única crítica que devemos fazer é, na verdade, um “dá para melhorar”: um filme que narra a história de uma transexual que não tem uma atriz transexual como protagonista? Entrei em discussão com alguns amigos porque, originalmente minha opinião era a seguinte: se eu fosse uma atriz trans, não ia querer desempenhar um papel masculino, portanto seria interessante que houvesse mesmo um ator cis para tal personagem. Porém, a questão é: eu não sou todo mundo e com certeza existe uma atriz trans que adoraria interpretar os dois gêneros. Isso significa que um filme o qual busca visibilidade pecou na parte mais importante: representatividade.

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                 Jamie Clayton

Ao mesmo tempo não podemos negar que Eddie Redmayne agregou um valor absurdo ao longa; seja por marketing ou por vontade pura de conscientizar um público maior, a presença dele fez com que o filme fosse ainda mais esperado e também com que as pessoas sentissem mais vontade de assistir.

No final das contas, o resultado é o seguinte: vamos dar mais oportunidades para atrizes e atores trans de se destacarem e oferecerem tanta notoriedade para um filme quanto alguém do naipe de Eddie Redmayne, não é mesmo? Estão aí Laverne Cox, Jamie Clayton e muitas outras e outros que são super talentosos e ainda estão por ser descobertos.

kkk
Laverne Cox

Já me cansei de ler esse dado, mas não custa reforçar: de acordo com um panorama estabelecido pelo coletivo Transrevolução, as pessoas trans têm uma expectativa de vida entre 30 e 35 anos no Brasil. Só em janeiro de 2016, de acordo com dados levantados por ativistas da causa, foram 60 pessoas trans assassinadas. Isso dá uma média de 2 pessoas por dia. E sabem por quê? Porque elas são assassinadas antes de conseguirem viver plenamente sendo quem realmente são. É como se você que está lendo esse texto tivesse que viver com medo de sair na rua só por ser homem. Ou por ser mulher.

Às pessoas trans que leram esse texto, eu já vou pedindo desculpas se falei algum termo errado ou equivocado. O intuito foi justamente mostrar que o filme é belíssimo e talvez sirva de carro-chefe para muitos atores e atrizes trans que estão vindo com apenas um objetivo: destruição total.

Quer saber mais sobre produções que abordam o tema ou que contêm atores/atrizes trans? Veja abaixo:

Orange is The New Black

Sense8

Priscila, a Rainha do Deserto

Tomboy

Elvis e Madona

Transamerica

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Escrito por Caroline Balduci de Mello

Caroline Balduci de Mello

Estudante de Jornalismo na Unesp de Bauru, atualmente está apaixonada por Doctor Who e Orange is the New Black, mas nunca vai esquecer do clássico Friends. Aberta para conhecer novas séries: sem preconceito nem discriminação de gênero ;)

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